30 de agosto de 2006

Em Santa Catarina

Santa Catarina irá entrar em obras. Já tinha sido anunciado, contudo, hoje, pela manhã, o Janeiro trazia dados mais concretos. Finalmente há prazos e preços. E vontade, também, para levar a cabo uma ideia que já vem de 2001.



Serão repostos, num pequeno trajecto da rua, os carris dos velhinhos eléctricos, possibilitando a ida do Carmo à Batalha descendo os Clérigos e subindo 31 de Janeiro, e o regresso, de novo a descer, por Passos Manuel até aos Aliados, e voltando a subir ao Carmo pela Rua de Ceuta. Um percurso que se adivinha encantador.



Ignoro o que irá acontecer a Santa Catarina, que parte será renovada, e desconheço o projecto. A rua é tão longa que vai da baixa à alta ligando duas praças. É uma rua de bom traço vinda dum tempo em que se fazia bem a cidade. À semelhança do vale do Douro, e do Porto também, está assente num socalco artificial, construído entre a Batalha e Gonçalo Cristóvão. Daí sobe segura até ao Marquês.

Irá seguramente resistir, até por que o pavimento da parte pedonal é desgracioso. O casamento de blocos de betão com calcário e basalto é infeliz. E a iluminação e os inúmeros obstáculos que por lá semearam as sucessivas vereações camarárias também. É como se a rua que veste casaca calçasse chinelos.







Aconteça o que acontecer, aqui ficam algumas imagens deste Verão, em Santa Catarina, para mais tarde recordar.

16 de agosto de 2006

Finalmente...



Finalmente surgiu do ar, a única prevenção eficaz contra os fogos de Agosto, a chuva. E A Cidade Surpreendente entregou-se à contemplação das nuvens redentoras, algures no vale do Douro, encantada com a possibilidade de olhar em redor sem entrever uma única mancha de fumo. As noites frescas e os aguaceiros são, de facto, um preço baixo a pagar pela preservação da paisagem natural e uma excelente defesa contra a barbárie incendiária que nos tem assolado nos últimos anos.

7 de agosto de 2006

Agosto no Porto

Primeiro vem a ameaça, no mês de Julho, com fogos de média dimensão um pouco por todo o distrito, a anunciar a catástrofe.


O céu a nordeste...

Quando chega Agosto basta a temperatura subir um pouco e o inferno aí está, invariavelmente, espelhado no céu. Foi assim no Sábado e no Domingo. O fumo no ar, a atmosfera irrespirável, o cheiro a madeira queimada que penetra em tudo...
Hoje de manhã, porém, o horror foi maior - como se fosse possível. O Sol, de um dia anunciado com céu azul e limpo, nasceu encoberto por um espesso manto de fumo, entre o negro e o amarelado da luz solar, que cobriu a cidade e fez as aves recolherem.


... e a noroeste

O monstro estendia-se por quilómetros, de nascente a poente, e ali esteve durante horas, ameaçador, largando cinzas ao vento. Depois dissipou-se em neblina, pairando ainda por aí neste fim de dia sufocante em que a rotina voltou a instalar-se.
Ontem em Paredes, hoje em Valongo, amanhã... não interessa. Já não acredito. É assim há anos. O festim dantesco continuará a desenrolar-se em Agosto, perante a indiferença e a inconsciência colectiva, até que se instale o deserto e nada mais haja para arder.

2 de agosto de 2006

O Palácio do Comércio





Em muitos de nós, a palavra palácio desperta de imediato o conceito de casa real ou nobre, oriundo, talvez, dos tempos em que o imaginário infantil era povoado pela leitura de contos de príncipes e princesas, com fadas à mistura.
O termo, no entanto, tem também, como se sabe, o significado mais concreto de casa grande, aplicado a muitos edifícios que compõem a cidade.
O prédio da Rua de Sá da Bandeira que as imagens representam, e que o afã diário nos impede de observar, foi provavelmente construído no início dos anos cinquenta. É majestoso e equilibrado, contudo, dele não encontrei qualquer referência na bibliografia que consultei sobre arquitectura do século XX no Porto. Quem terá projectado o Palácio do Comércio?

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7 Agosto 2006

Quando deixei no ar a pergunta sobre a autoria do projecto de arquitectura do Palácio do Comércio não estava à espera que o resultado fosse tão proveitoso. A questão vale o que vale, isto é, só interessa aos curiosos destas causas. O resultado, produto da contribuição de Pedro Lessa, Tiago Azevedo Fernandes - criador e moderador do único fórum virtual de cidadania em Portugal - se outro houver, façam o favor de me dizer que eu corrijo - e Álvaro Mendonça, permite elaborar uma pequena ficha do notável edifício que ocupa todo um quarteirão no alto da Rua de Sá da Bandeira.

O projecto de arquitectura é de David Moreira da Silva, genro de Marques da Silva o arquitecto que, a par de Nicolau Nasoni - em tempos diferentes -, mais marcou o Porto com a sua arte.
O apelido Moreira da Silva levanta-me outra questão. Terá alguma ligação familiar com o horto de Moreira da Silva, que na rua de Rua de D. Manuel II, diante do Museu de Soares dos Reis, foi substituído por um mastodonte de betão e vidro? Aí o horto ostentou numa empena, durante muitos anos, o belo e imperativo lema, inscrito na silhueta escura duma pêra, «Plantai as Nossas Árvores e Colhereis os Melhores Frutos». Plantai. Colhereis. O abuso da corruptela fez, entretanto, desaparecer da linguagem corrente a conjugação da segunda pessoa do plural... Continuemos.

Segundo Álvaro Mendonça, o promotor do Palácio do Comércio foi «Delfim Ferreira, conde de Riba d'Ave, tendo-se encarregado da sua construção, a Cooperativa dos Pedreiros sob projecto de engenharia de Teixeira Rego». «(...) o custo total da obra, considerado gigantesco para a época, terá rondado os 300 mil contos. Toda a caixilharia é em bronze e alguns dos vidros aplicados em algumas das janelas e vitrinas, são em formato curvo e, ao que apurei, foram importados da Bélgica, a preços elevadíssimos», acrescenta Álvaro Mendonça no seu comentário. Informações preciosas, a que acrescento a de Pedro Lessa que nos diz que a data do projecto é 1941, de acordo com o Jornal dos Arquitectos, nº 85 de Março de 1990, pág. 31.
O meu obrigado a todos.