30 de janeiro de 2012

Luz e Sombra na Paisagem Urbana - I

A Praça do Infante


Luz e Sombra na Paisagem Urbana é o título de um conjunto de fotografias analógicas tiradas em Janeiro de 2002, de que publicarei aqui alguns exemplares. O objectivo de então foi captar a luz da cidade em dias límpidos, contrariando o mito que diz ser o Porto uma cidade escura, imersa em nevoeiro. Nada a provar, apenas um exercício. As neblinas portuenses, vindas do Atlântico, são uma realidade celebrada na literatura, na pintura e na música, que dá lugar a dias de sol, como os que têm decorrido agora, passados 10 anos, em Janeiro de 2012.
Na imagem de hoje está a Praça do Infante, com o monumento da autoria de Tomás Costa, inaugurado em 1900, ”vítima” de uma intervenção artística da Porto 2001 que, no final daquele ano, vestiu onze estátuas da cidade.

23 de janeiro de 2012

A Cerca Nova

Cerca Nova é a designação da muralha defensiva do Porto construída durante o século XIV, conhecida também por Fernandina. Nova por oposição à muralha primitiva que ao cercar apenas o morro da Sé, se tornou insuficiente para proteger a cidade que tinha crescido para além dos seus muros. A Cerca Nova, foi abordada pelo padre Agostinho Rebelo da Costa na sua Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, editada nesta cidade em 1789, que está disponível no Google Books, (e na Biblioteca Nacional Digital) a partir da qual foi feita a transcrição livre abaixo publicada.


«Em 41 graus e 10 minutos de latitude, 9 e 58 minutos de longitude próxima à foz do Rio Douro, que desagua naquela parte do oceano a que os antigos chamaram Atlântico Ocidental, está situada esta famosa cidade, segunda na grandeza, e na opulência entre todas as do reino. A sua figura contemplada dentro dos muros, imita um quadrilátero irregular de dois mil e seiscentos pés de comprido, e de mil oitocentos de largo. Firma-se sobre dois grandes, e dilatados montes, que são o da Sé e o da Vitória, ambos imediatos ao Rio Douro. Entre estes dois montes, medeia uma dilatada planície, que se divide em três vales sobranceiros uns aos outros: o primeiro, dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos; o segundo continua por toda a Rua Nova de S. Nicolau; o terceiro abrange a Ribeira, Fonte Taurina, e toda a Reboleira, até à Porta Nova. Pouca, ou nenhuma terra se verá em esta dilatada extensão, que não esteja povoada, e coberta de edifícios. O prospecto da cidade observado da parte meridional do Rio Douro, é bem semelhante a um anfiteatro.


Um elevado muro de quase três mil palmos de circunferência, e trinta pés de altura, abrange o seu interior. Todo ele é fortificado com parapeitos, ameias, e multiplicadas torres quadradas, que o excedem na altura de onze pés. O seu âmbito, é rasgado por muitas portas grandes, e levadas, que dão entrada, e saída ao povo, carros, seges, e tudo quanto é necessário para o serviço público. As maiores portas, e as de maior concurso, são a Porta Nova, a dos Banhos, Lingueta, Peixe, Ribeira, que faceiam com o rio; e para a parte da terra, a do Sol, Cima de Vila, Carros, Santo Elói, Olival, Virtudes. As três portas de Cima de Vila e do Olival, estão guarnecidas de quadradas torres, que se elevam trinta pés acima dos muros. Quási todas as portas, são igualmente guarnecidas com parapeitos, que lhes servem hoje de composição, e ornato. Em muitas delas residem continuamente diversos Corpos de Guarda Militar. Principia este dilatado muro no sítio chamado Porta Nova aonde faz um ângulo em modo de plataforma, que olha para o poente, e no qual está sempre um presídio de soldados: daqui discorre ao meio dia, quási em linha recta pela margem do Rio douro; e depois de formar uma varanda espaçosa de dois mil pés de comprimento, faceada de belíssimos edifícios, e disposta em forma, que serve de agradável passeio ao público, chega aos Guindais, e subindo pela parte do nascente até à graciosa Porta do Sol, vai terminar-se nas portas de Cima de Vila, que ficam, uma ao nascente, outra ao poente, outra ao sul. (*) Logo principia a descer pela íngreme calçada a que chamam da Teresa até à Porta de Carros. Esta porta, que é a mais frequentada de todas da cidade, foi aberta no ano de 1521, como consta da seguinte inscrição gravada em uma grande pedra, que está no alto do seu arco:

REGNANTE DIVO EMMANUELE,
QUI PRIMUS PORTUGALIAE REGUM
AD MARE USQUE INDICUM, ET
SCYTICUM LUSITANIAE IMPERIUM
PROPAGAVIT, APERTA FUIC HAEC
PORTA SIMULC VIA, QUAE HINC
IN SANCTI DOMINI TEMPLUM
DUCIT, INDUSTRIA ANTONII
CORREA HUJUS PROVINCIAE CORRECTORIS.
1521

Desde esta porta, continua o muro sucessivamente até à de Santo Elói, e daí começa outra vez a subir; e em chegando à grande Porta do Olival faceia com o largo da Cordoaria, desde a Porta das Virtudes, à da Esperança, e finaliza no Forte da Porta Nova em que teve princípio. Não devem estes muros a sua fundação, como alguns dizem, ao Arcebispo de Braga D. Gonçalo pereira; mas a D. Afonso IV, D Pedro I, e D. Fernando, reis de Portugal. A sua fábrica durou quarenta anos, e por esta causa ocupou as vidas daqueles três monarcas.

(*)Chamam-se também as Portas da Batalha, e como tais as descrevo no capítulo anterior.»

12 de janeiro de 2012

Janelas do tempo - XII

Três mulheres constituem as figuras centrais desta imagem atribuída, como a anterior, a Marques Abreu, que deverá datar do início do século XX. Uma delas leva na mão um peixe, parco alimento que parece embrulhado num papel, provavelmente de jornal, enquanto outra olha curiosa para trás. Era um trabalho duro, o das mulheres que labutavam no Cais da Ribeira onde, pela via fluvial, chegavam muitos dos víveres e outras mercadorias de que a cidade necessitava. À direita, imobilizado com um calço, vê-se um carro de bois carregado de sacos que poderiam conter carvão. O toldo, à esquerda, deixa adivinhar a actividade comercial que ali havia e se manteve até há alguns anos, antes de ter sido substituída por bares, restaurantes e lojas de venda de produtos destinados ao turismo de massas.


Ao fundo está a estrutura esbelta e imutável da Ponte Luís I, reflectindo o sol da tarde, e um edifício que foi demolido há decénios, deixando aquele espaço mais desafogado, como pode observar-se na fotografia de baixo.

9 de janeiro de 2012

Janelas do tempo - XI

No final da tarde, quando o fotógrafo disparou o obturador da máquina fotográfica e registou o instantâneo que hoje aqui trago, o bulício que caracterizava o Cais da Ribeira no início do século XX, tinha acalmado. Duas mulheres caminham a passos largos, enquanto outra entra inopinadamente no plano da imagem.


Nas arcadas do muro da Ribeira distinguem-se inscrições (se clicar na imagem vê-la-á maior) de uma mercearia e de uma loja de vinhos e tabacos. Um carro de bois cruza-se com um homem que transporta uma vasilha de lata à cabeça. Há algumas crianças na imagem, mas o grupo preponderante é composto por mulheres que se apresentam maioritariamente descalças. Uma varina, de costas, com a canastra entre as mãos, deixa ver a rodilha na cabeça. Ao fundo, o maciço rochoso do Codeçal cai abrupto diante da Ponte Luís I, quase ocultando a passagem do cais para aquela travessia para Gaia. Esta massa granítica viria a ser desmontada aquando da abertura do túnel da Ribeira, nos anos 40-50 do século passado.

A fotografia, digitalizada a partir de um negativo de vidro no formato 9x12 cm, foi adquirida numa banca de rua a alguém que a atribuiu a José Antunes Marques Abreu, o artista gráfico que, nascido em 1879 no concelho de Tábua, chegou ao Porto em 1893 e aqui faleceu em 1958, após um percurso profissional notável na área das artes gráficas.