05 novembro 2009

Um poema de Minês Castanheira ...

... dito ontem por José Carlos Tinoco, acompanhado pelo improviso, ao piano, de Marco Figueiredo, no Labirintho.



Tenho uma cidade inteira
no livro de bolso.

Uma esquina de segredos que eram a meias
e se escaparam num rasgão,
naquele desencontro ou noutro. Tenho
uma cidade inteira no bolso e levo escondidas
no casaco noites como aquela - em que à conta de
atravessarmos as árvores e arrancarmos raízes,
trocámos os cheiros da terra por histórias
que não precisam de chão. Passámos a ter janelas
para dentro
no lugar dos botões.

Tenho uma cidade de costuras
pouco urbanas,
de buracos remendados com má caligrafia. Tenho
vírgulas gastas, travessões que ninguém quer
a pontuar os encontros nas ruas, quando
destas ruas ainda se faziam margens
para nos esperarmos uns aos outros.
Tenho uma aldeia que se ergue à altura dos olhos
e contorna rotundas com alfinetes de betão.

Tenho uma cidade no bolso.
De contrabando.

Para saber mais sobre a autora consulte o Blogue Literário do Porto

24 outubro 2009

Porto



Porto

Portu
gal de cinza e pedra, crista
de rio e mar. Canto (de pe
dra, ainda) escuro (escura).
garra de
semânticas asas. Porto
e navio de âncoras
erguidas,
soterradas.

Porto 2

Coração que do rio
o sangue e a música retira.
gaivota de pedra,
navio
e lira.

Albano Martins

14 outubro 2009

O Arco de Sant'Ana

Almeida Garrett lamenta assim, n' O Arco de Sant’Ana, a demolição, em 1821, daquele monumento que conhecera na meninice:

Caíste tu, ó arco de Sant’Ana, como, em nossos tristes e minguados dias, vai caindo quanto há nobre e antigo às mãos de inovadores plebeus, para quem nobiliarquias são quimeras, e os veneráveis caracteres heráldicos do rei-de-armas-Portugal língua morta e esquecida que nossa ignorância despreza, hieroglíficos da terra dos Faraós antes de descoberta a inscrição de Damieta! – Assentaram os miseráveis reformadores que uma pouca de luz mais e uma pouca de imundície menos, em rua já de si tão escura e mal enxuta, era preferível à conservação daquele monumento em todos os sentidos respeitável.



O arco ficava numa das portas da muralha românica, na actual Rua de Santana. Tinha ao centro, na face voltada para a Igreja dos Grilos, um oratório coberto por uma vidraça onde se venerava uma imagem da Santa. O acesso ao oratório era feito através de uma porta aberta na parede da muralha que servia de encontro ao arco. É nessa entrada, hoje convertida em nicho, que a população da Sé venera uma imagem de Santa Ana com S. Joaquim, dando continuidade a um culto que remonta, pelo menos, ao século XVI.