23 de Agosto de 2014

O Grande Desfiladeiro

(Texto de um velho e venerando Mestre)

«O rio Douro é, seguramente, o rio mais impressivo e rico de grandiosas perspectivas do velho mundo. No entanto -, apesar de tudo quanto tem sido escrito e publicado, desenhado e divulgado -, parece não ter tido ainda a fortuna de encontrar um verdadeiro escritor ou pintor que eternize a sua estranha e tácita beleza.

Junqueiro, que tantos anos viveu junto deste vale, que o percorreu dezenas e dezenas de vezes, que calcorreou os seus pendores -, não o viu. Antero, cremos que nunca o avistou senão junto do Porto. António Nobre apenas o contemplou da Foz. Raul Brandão só lhe viu a grandeza nos dias de temporal, do alto da Cantareira, sonhando no Avô, alto e louro como ele, desaparecido no mar. Pascoais apenas conheceu, pode dizer-se, o seu último filho: o Tâmega. Camões jamais o avistou. Eça, olhou-o com os olhos de Jacinto.

Em resumo: nenhum escritor ou poeta português teve a fortuna de abrir decididamente os olhos para a pujança, a austeridade, a força telúrica, deste estranho desfiladeiro aberto por esta serpente milenária vinda dos Montes Ibéricos!»

Sant'Anna Dionísio


21 de Agosto de 2014

5 de Agosto de 2014

Homenagem à vida de uma árvore

O cenário é o do verdejante Jardim das Virtudes, num vale encaixado na encosta do Douro por onde correu outrora livremente o rio Frio. Num socalco está uma Ginkgo biloba com mais de duzentos anos e trinta e cinco metros de altura, a maior árvore desta espécie existente em Portugal e uma das maiores da Europa. Desfrutando da atmosfera fresca que emana da copa da rainha das Virtudes estão os convidados, sentados de frente para a pequena assistência que se mobiliza para estas questões: Teresa Andresen, arquitecta paisagista e engenheira agrónoma, Isabel Lufinha, da Câmara Municipal do Porto, e o escritor Mário Cláudio.

O evento, denominado Um Objecto e Seus Discursos, tem convidado os portuenses a conhecer os espaços e os tesouros da cidade contados por quem faz as suas histórias. O objecto, neste caso, é um ser vivo de quem Teresa Andersen fala com paixão, ao ponto de elevar a cabeça para a árvore e perguntar-lhe: «Ó Ginkgo, assististe ao Cerco do Porto? Visto o D. Pedro - o meu herói?». E discorre sobre o formato das folhas, parecidas com as das avencas, a resistência da homenageada, de que há registos de indivíduos com milhares de anos e de ter sobrevivido ao bombardeamento de Hiroshima, notando que aquele exemplar, nascido num socalco estreito, deverá ter as raízes penetrando profundamente nas fendas do granito do vale, onde vai buscar alimento. «As árvores no Porto são maiores do que em Lisboa», acrescenta. «Fiquei admirada quando aqui cheguei e verifiquei que também cresciam mais rapidamente».

Mário Cláudio abordou a história do lugar. Lendo excertos do seu romance A Quinta das Virtudes recordou a origem da casa e os seus jardineiros, Pedro Marques Rodrigues, o fundador do horto nos anos quarenta do século XIX, e José Marques Loureiro (1830-1898), que o guindou à liderança dos hortos nacionais e até peninsulares. Por fim, afirmou que deveríamos guardar uma recordação material destes seres notáveis quando morrem, lembrando o jacarandá do Largo do Viriato, «a última árvore que Eugénio de Andrade viu florir, a partir de uma janela do Hospital de Santo António», lamentando que dela não exista nenhuma memória palpável.

No Porto não há muitos indivíduos desta espécie ornamental mas, mesmo assim, há poucos anos foram plantados alguns exemplares nas ruas Cândido dos Reis, Galeria de Paris e Santa Teresa, e na parte nascente da Avenida da Boavista, diante do Hospital Militar, que dão cor à ruas da cidade quando no Outono se vestem de amarelo. Existe ainda um jovem Ginkgo solitário na rua da Alfândega, em frente à Igreja de S. Francisco.