30 de dezembro de 2007

Reconheça-se



Goste-se ou não dos equipamentos efémeros implantados em algumas praças do centro da cidade – e eu acho-os de gosto duvidoso, para ser benévolo – reconheça-se que funcionaram bem, como pólos de atracção de gente à baixa. Gente de que o centro do Porto está tão necessitado. Na imagem: um instantâneo captado Sábado nas imediações da tal árvore de Natal mais alta da Europa.

5 de dezembro de 2007

Valeu a pena


A noite estava marcada pelo frio, pela neblina e pela fraca mobilização popular. Mesmo assim fez-se a festa, promovida por um grupo de cidadãos, sem apoios oficiais.
Os sinos tocaram a rebate, como há onze anos atrás, quando a UNESCO classificou o centro histórico da cidade como Património Mundial.


Houve música e um silêncio negro, trazido por Pedro Burmester que interpretou 4’33’’ de John Cage.


O Porto comemorou, tristonho, o 4 de Dezembro, o que não acontecia há seis anos. Só por isso, pelo quebrar da indiferença sobre tão importante momento da história recente da cidade: valeu a pena!

23 de novembro de 2007

Cidadãos do Porto, SA

«Cidadãos do Porto, Sociedade Aberta é uma rede de cidadãos do Porto (e região) interessados e preocupados com a sua cidade, o seu património e desenvolvimento.
O nosso território de preocupação e acção é o que se inscreve na Planta Redonda, ou seja o Centro Histórico e a Baixa, e a rede baseia-se no voluntariado e na independência.
Pretende-se mobilizar, para objectivos comuns, os cidadãos preocupados com o Centro Histórico do Porto, património mundial inscrito na lista da UNESCO desde 1996, independentemente da sua cor política, religiosa, clubista ou qualquer outra.
Como projecto imediato estamos a preparar a comemoração do 11º aniversário da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial, que se celebra a 4 de Dezembro.
Este ano, vamos fazer uma festa, apesar de ser Inverno, e dia de trabalho. Calha numa terça-feira e provavelmente choverá. A festa terá de ser depois das 18h30 e para protecção estamos a preparar capas de chuva, identificadas com o símbolo do Património Mundial
O nosso lema para este ano é o eu imPORTOme
A nossa prioridade é a mobilização, por isso precisamos de si, dos seus 11 amigos e dos 11 amigos deles. Estamos a ultimar o programa da celebração, aguardando algumas confirmações e orçamentos, e logo que fique pronto seguirá para todos os que, como é o seu caso, se registaram neste endereço 4.12.2007@gmail.com. A hora é de alargar o número de participantes registados, para começarmos a poder estimar quantidades de coisas a contratar. Viva o Porto!»

Cidadãos do Porto SA

24 de outubro de 2007

Indústrias Culturais - o blogue e o livro

Indústrias Culturais - Imagens Valores e Consumos é o título do último livro de Rogério Santos. A obra é baseada nos textos que o autor foi escrevendo no seu blogue, um espaço que alimenta diariamente, de onde observa e comenta a realidade dos acontecimentos que remetem para o universo da reprodução técnica da cultura, faz a leitura de livros e artigos de jornais sobre a área, e partilha os mesmos assuntos com outros investigadores ou simples leitores. O livro será apresentado amanhã, 25 de Outubro, pelas 19h00, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, por António Pinto Ribeiro.

6 de outubro de 2007

Se esta rua fosse minha

Quatro instantâneos de 5 de Outubro, o dia em que o Plano B transformou a Rua de Cândido dos Reis num espaço aberto a sucessivos eventos culturais.



A performance Spirits - onde espíritos do passado, unidos pelo destino, invadem as ruas entrando num mundo que já não é seu - interpretada por Helena Oliveira e João Saraiva. Uma produção da PIA, Projectos de Intervenção Artística e Cultural.


Silêncios, a pintura monocromática de Nuno Cabral exposta no Plano B


E nova performance, Maria Braun in Love, inspirada em três histórias de amor do cinema e da literatura, com a direcção artística de Dörte Lange.

13 de setembro de 2007

Bruma



Neblina que, vinda do Atlântico numa tarde recente, num divertimento de tapa destapa, mostra esconde, penetrou pelo vale do Douro e se instalou nas ribas do Porto e de Gaia.

8 de setembro de 2007

Mar chão



Navio que rumou a sudoeste alguns minutos após o ocaso de ontem, depois de ter zarpado de Leixões, desaparecendo no mar e na noite.

24 de julho de 2007

Na poeira da memória

Na Rua de Passos Manuel há um local que desperta a atenção dos transeuntes mais atentos. Param e espreitam, surpreendidos perante um antigo armazém de tecidos que continua em plena laboração. Da estrutura do edifício, construído em 1860, aos objectos que o povoam, quase tudo ali remete para o passado. O soalho de tábua trincada, as enormes bancas de trabalho, o postigo e as divisórias em madeira do escritório, o velho cofre, uma prensa e até uma antiga balança de dois pratos e travessão, com os pesos alinhados. Numa das paredes interiores há ainda uma marca que indica ter ali funcionado uma leiloeira.



A fundação do actual armazém remonta a 1921. O Porto de então estava em pleno crescimento, constituindo um pólo de atracção em toda a região norte do país.



José Gonçalves, um dos fundadores, começou a trabalhar em Guimarães, aos 12 anos de idade. Quando chega ao Porto, para exercer a profissão de viajante, é já um jovem adulto cheio de esperança e vontade de singrar. Passa a visitar os clientes do interior do país, munido de uma mala com amostras de tecidos, e regressa à casa mãe com encomendas.



Aqui conheceu Serafim Soares Monteiro, chefe de armazém com comprovada experiência mercantil, adquirida desde 1905, ano em que principiara a trabalhar numa firma do Largo dos Lóios. Ligados por uma sólida amizade e auxiliados financeiramente por João Rodrigues Loureiro – um industrial de Valença do Minho, conterrâneo e protector de Gonçalves, que o tinha levado para Guimarães em 1906 como marçano – fundam o armazém de lanifícios Gonçalves, Monteiro & Cia., Lda. O negócio prospera rapidamente na baixa fervilhante de actividade. Compram tecidos por grosso a vinte fábricas portuguesas e quatro inglesas, vendendo depois para todo o Portugal e colónias.



Com a morte dos fundadores a firma passa para os herdeiros, que nos anos 70 compram o prédio e avançam com um projecto de modernização das instalações. Esse desígnio, que alteraria por completo o que lá encontramos, viria a ficar pelo caminho devido à instabilidade provocada pela Revolução de Abril e ao posterior desaparecimento prematuro de José Milhão, o sócio mentor da remodelação.

José Augusto Gonçalves, um dos donos actuais e homónimo do fundador, afirma que há vinte anos se contavam pelas dezenas os armazéns deste ramo no Porto. Hoje subsistem apenas uns três ou quatro.



Mostra-me uma peça de surrobeco, um pano castanho e grosso caído em desuso juntamente com o burel, como exemplo dos velhos tecidos que continua a vender, para grupos de teatro e ranchos folclóricos, a par das actuais e excelentes casimiras importadas de Itália e dos poliésteres asiáticos.



Não se queixando do negócio acrescenta que, quando aparecer um comprador para o edifício, fechará as portas e irá para casa, dissipando em pó este interessante episódio da memória da cidade.

9 de julho de 2007

Lamentável



Não é novidade, mas constituiu uma desagradável surpresa quando, há dias, dei pela falta daquela figura aprumada, de farto bigode e vestida a rigor, que constituía o símbolo do Café Embaixador. Estava lá desde 1997, aquando da remodelação do café. Tinha sido feita por encomenda, à escala natural, em resina sintética sobre uma estrutura de aço que se encontrava soldada à pala de betão que protege a entrada do Embaixador. Foi roubada durante uma das noites de Dezembro passado. Tanto quanto sei não será substituída.

Será este um blogue que faz pensar?



Pela minha parte não creio que haja por aqui grandes motivos de reflexão, nem é esse o meu objectivo. Trata-se, antes, de um espaço onde partilho uma visão pessoal da região onde nasci e vivo, que se tem revelado extremamente gratificante pelo retorno que tem tido.
É dentro desse conceito de retorno que entendo a atribuição do Thinking Blogger Award, pelos autores de O Século Prodigioso, da Oitava Edição, do (Art)snack, do Sem Demora, do Kimboio, da Menina Marota e do Nothingandall, ao fotógrafo e escriba da Cidade Surpreendente. A todos o meu obrigado e... por favor, perdoem-me a quebra da cadeia por não multiplicar estas hiperligações por cinco.

3 de julho de 2007

Exemplar



A parte alta da moderna Rua de Sá da Bandeira está belíssima. Moderna porque a arquitectura do betão, utilitária e cosmopolita dos anos 50 do século passado, marca a diferença da baixa granítica, que lhe é anterior. Belíssima porque a dupla de arquitectos Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, em 2001, manteve a calçada de calcário e basalto, reflectora de luz, e resolveu arborizá-la, permitindo que, neste início de Verão, colhamos os frutos de tão acertada decisão.

20 de junho de 2007

O Navegador



O Infante D. Henrique

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as novas eras -
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

Fernando Pessoa

8 de junho de 2007

António Lobo Antunes na Feira do Livro



Chegou com mais de meia hora de atraso. Trazia sapatos de pala pretos, brilhantes – a marca de uma geração –, calças de ganga e a camisa solta. Suspenso pela mão esquerda, um pesado blusão de pele caído nas costas.

Vagueou um pouco, daqui para ali, dali para acolá, estranho, indeciso, com um olhar vazio e sofrido. Aparentemente ter-lhe-á desagradado a centralidade e a exposição visual do Café Literário. Após uma troca de palavras com dois acompanhantes solícitos, o cortejo transferiu-se para um recanto, feito de divisórias amovíveis, debaixo da escadaria do Pavilhão Rosa Mota.

No caminho um rapazola ousado aborda o escritor. Lobo Antunes acede a figurar numa fotografia com o rapaz, que passa a máquina fotográfica à namorada. Entusiasmado, o moço abusa. Abre um sorriso para o retrato, eleva o braço esquerdo e pousa-o nos ombros do autor, como se fossem íntimos. Lobo Antunes dá a figura, sem participar da farsa. Olha para o lado, como se estivesse perdido.

A atmosfera, no pequeno local, rapidamente fica irrespirável. Há muita gente com livros, ansiosa por conseguir um autógrafo. O autor, sem nunca abandonar o olhar vago e sofrido, atende cada um com a solicitude possível. «O seu nome, por favor?». «César Augusto!». «É um nome pesado…» - comenta. E lá deixa a dedicatória nas primeiras páginas de «A Explicação dos Pássaros».

Afasto-me, pensando que prefiro a implícita e salutar arrogância das habituais entrevistas do escritor, a este António Lobo Antunes fragilizado pela doença que recentemente o acometeu.

O fiasco do regresso

O anunciado regresso, há dois meses, d'A Cidade Surpreendente revelou-se um fiasco. Primeiro, porque tenho andado com a minha atenção e o meu tempo direccionados para outros afazeres. Segundo, porque, diga-se em abono da verdade, o entusiasmo com que alimentava o blogue acabou por esmorecer.
Este espaço contudo não acabará, continuará, isso sim, com actualizações esporádicas.
O meu obrigado a todos aqueles que se mantiveram fiéis visitantes d'A Cidade Surpreendente, que mais não é do que um olhar pessoal sobre a nossa cidade. Aos muitos comentários da entrada abaixo responderei, na medida do possível, por correio electrónico.

7 de abril de 2007

Do moinho e da vida



«Não me fotografe, fico muito velha nas fotografias», diz-me Maria Estrela. «Eu ponho-a nova», respondi-lhe. E ela aí está, fazendo jus ao nome, sorridente, digna, com uma vida de trabalho marcada no rosto.





Nasceu ali, em Coucela, Penha Longa, freguesia ribeirinha do grande rio. Tem cinco filhos e onze netos, todos residentes em Portugal - coisa rara nesta terra marcada pela emigração. Aos oitenta anos ainda semeia, colhe, mói e faz o pão. Vive entre pés de vinha e árvores de citrinos. É Domingo e Maria Estrela de Oliveira enverga roupas de trabalho. Para assinalar o dia traz dois vistosos brincos de ouro. Parece divertida com o nosso interesse pelo moinho, mas quantos de nós viram um moinho a trabalhar?



Este é movido pela água do Refojos, um ribeiro que foi cavando um sulco na montanha e corre apressado de pedra em pedra, encosta abaixo, num percurso que não terá mais do que seis quilómetros, até se despenhar no Douro, em Afonsim, duas curvas abaixo do Carrapatelo. Um lugar idílico onde o silêncio apenas é quebrado pela passagem dos barcos que transportam turistas, rio acima, rio abaixo, a horas certas.



Manuel Joaquim Messia, bem tratado, diz manter o moinho por gosto. Tem uma névoa no olhar que lhe tolda a visão. Foi dono de quatro moinhos em Vila Real. Ficaram para trás, perdidos no tempo, quando deixou o Corgo e se instalou nas arribas do Douro, para comprar terra e casar.
O rio de então não era o lago de hoje, comprimido pelas barragens. Corria livremente, tormentoso no Inverno e manso no Verão. Das margens avistavam-se os rabelos transportando vinho, e tudo o mais que o Douro interior produzia, rumo ao Porto.
«Ó senhor Arrais! Quantas pipas levais?». «Levo uma… levo duas… levo três! Vai pró corno que te fez!».
Memórias e vivências de outro tempo, a cada dia que passa mais distante e difícil de encontrar.

29 de março de 2007

O regresso da Cidade





Como se pode observar pela data da última entrada, há dois meses que não actualizo A Cidade Surpreendente. Mais importante, para mim, do que enumerar as causas da ausência é assinalar o regresso das actualizações do blogue. Para tal, escolhi duas fotografias datadas do período de afastamento. Uma, que gostaria de ter tirado, assinala as treze horas e trinta e sete minutos de 11 de Fevereiro passado, dia em que um cerrado e pacífico nevoeiro, como já não me lembrava de ter visto nem sentido, desceu suavemente sobre o Porto. Foi-me gentilmente enviada, e dedicada à Cidade Surpreendente, por Álvaro Mendonça, com o título feliz de Neblina Concertante. Os Liquidâmbares da Rotunda da Boavista erguiam, então, os ramos despidos de folhas ao céu.
A outra foto foi tirada poucos dias depois, a 24 de Fevereiro. Apesar da ausência unificadora da neblina, não é menos concertante do que a primeira. O concerto aqui é, no entanto, outro, o do tempo universal, marcado pelo prenúncio da Primavera com que a Magnólia da Praça da Liberdade nos presenteia, vestindo-se de branco em pleno Inverno, invariavelmente, a cada ano que passa, para alegria dos nossos dias.

28 de janeiro de 2007

Jogo de sombras


Antiga Adega de A. Valente, na Rua do Souto

O Motim

Dos amotinados de 1757
nomeio a Estrelada.
Se gostava da pingoleta
é coisa que não sei:
o vinho tem razões
que a razão desconhece
e as razões são aos milhões.
Certo, certo é que o Marquês
disse por cima do ombro:
nas tabernas do Porto
vinho só o da Companhia - ponto
final. Vírgula, disse o povo,
fazendo contas de cabeça.
E nessa quarta-feira
As ruas acenderam-se.
E o sol... moita carrasco.
Abaixo a Companhia!
E foi o pandemónio.
Veio a tropa, veio a lei,
homens de má catadura.
Forca, açoites, calabouço,
confiscação e galés.
Foi quase meio milhar
de tripeiros que julgavam
que o povo é quem mais ordena.
O sol já tinha remorsos:
quem é aquela criança
que assiste à morte do pai?
Condenada, meu senhor.
Da forca pendem treze homens,
quatro mulheres também.
A Estrelada estava grávida
- salvaram-se as aparências.
Ah vocês cuidam que sim?
Cuidam que o rei é um boneco
e que, ao fim de quatro meses,
lá por nascer um fedelho,
a lei vai servir de fralda?
Sobe à forca, ó Estrelada,
e que o Marquês se console,
enquanto o rei come o sol
num cubo de marmelada.

António Cabral
_________________
O motim popular do Porto, em 1757, foi provocado pela decisão régia de não permitir que as tabernas do Porto vendessem vinho que não fosse o da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (criada no ano anterior) (N.A.)
_________________
in Ao Porto, Colectânea de Poesia sobre o Porto, Publicações D. Quixote, 2001

20 de janeiro de 2007

Onde a tradição ainda é o que era

A singularidade da figura oitocentista da montra, deslocada no tempo há gerações, serena e levemente altiva, a par da peculiar actividade de produção de cabeleiras num ambiente fin-de-siécle, elevam a pequena loja conhecida como Cardoso Cabeleireiro, na Rua do Bonjardim, à condição de instituição urbana portuense.





Quando lá entrei estava Horácio Teixeira a «fazer a franja», a prender e a alinhar com destreza, num fio esticado, conjuntos de seis a nove cabelos. Para formar uma cabeleira são precisas 2000 fiadas destas, que podem demorar três dias a concluir. Trabalha com cabelo natural, matéria-prima que já foi mais fácil de encontrar. «Hoje os cabelos usam-se curtos; para serem trabalhados têm que ter no mínimo vinte centímetros de comprimento», diz-me.



A actividade já teve melhores dias, «no tempo em que os actores do Sá da Bandeira vestiam a rigor». «Hoje, um actor», mesmo que vá representar o papel de Luís XV, «entra no palco de qualquer maneira», acrescenta.

Nada é como era, com excepção daquele estabelecimento. Ali impera a tradição, patente num conjunto de mais de 300 cabeleiras para alugar - de senhores e de vassalos, de santos e de anjos - tratadas pelo mesmo método e com os mesmos instrumentos que eram usados há cem anos, quando a casa foi fundada.

Jerónimo Cardoso Jorge, o fundador, regressou ao Porto após ter visitado a Feira Universal de Paris em 1900, carregado de revistas e entusiasmado com o que tinha visto e aprendido por lá. Em 1906 alugou o edifício da Rua do Bonjardim, instalou a casa de família no primeiro andar e a loja no rés-do-chão, trabalhando como cabeleireiro e fabricante de perucas, capachinhos e bigodes. Chamou os sobrinhos, Manuel e António, para junto de si e, incansável, continuou a viajar por França e Espanha, donde trazia cabelo, e por Portugal e pelo Brasil, angariando clientes.



Morreu em 1920 deixando o negócio nas mãos dos sobrinhos. António desapareceu em 1973 e o irmão em 1988. Sem descendentes directos confiaram a casa a Horácio Teixeira e a Israel Matos, os seus mais leais empregados. Horácio, hoje com 61 anos, começou como aprendiz, aos 10 anos de idade, «depois de ter completado a 4ª classe». Israel foi introduzido na arte por um vizinho, empregado da loja, em 1965, quando tinha 11 anos.

A actividade da casa tem a época alta a partir da Páscoa, coincidindo com as festividades religiosas até Setembro. Nos restantes meses do ano «aguenta-se, há sempre que fazer».



Pergunto a Horácio Teixeira o que acontecerá à loja quando se cansar de exercer a profissão. Responde-me encolhendo os ombros e levantando as sobrancelhas, ao mesmo tempo que afasta os braços com as mãos abertas. Teve «três miúdos aprendizes» que se desinteressaram pela arte. Provavelmente fechará.