21 de outubro de 2013

Um funicular para turistas?

Um pouco das origens do funicular dos Guindais, o seu percurso recente e a visão mercantilista que a Metro do Porto tem dos transportes públicos, estão nesta notícia do Porto24. Ébria com o número de passageiros transportados, a empresa acabou com o Andante azul e passou a cobrar 2,00 euros por viagem no elevador. Os STCP adoptaram o mesmo critério redutor para os nossos velhinhos e encantadores eléctricos.
Fica a pergunta: os transportes públicos são para os habitantes da cidade ou para os turistas, enquanto residentes eventuais? Se a cidade for um local bom para os seus habitantes será, com certeza, acolhedora para os turistas. O contrário, a cidade pensada para os turistas, terá tendência a expulsar, ainda mais, os seus habitantes.

7 comentários:

João Menéres disse...

Tem toda a razão !


Um abraço.

margarida disse...

Hã? De certeza? Na notícia fala de um título específico para o Funicular, nada refere sobre a não validade do andante, para quem o tem...
E os eléctricos? Quê? O Andante deixou de valer? Homessa! Isso é mesmo assim?! Ai!
Então para que servem os autocarros amarelos, vermelhos e por aí fora, que agora circulam apenas para turismo?
Os eléctricos são nossos! Muito nossos! Era o que havia de faltar! :(

Carlos Romao disse...

Um abraço, João Menéres.

Carlos Romao disse...

É verdade Margarida, o Andante azul, o título para viagens eventuais, que custa 1,20 € já foi válido para o metro, os autocarros, os eléctricos e o funicular. Este deixou de o aceitar em Julho; substituiu-o pelo Funi, um eufemismo para aumentar o preço para 2,00 € por viagem. Até aqui fazia podia fazer duas viagens por 1,20 €. No entanto, o passe mensal, o Andante dourado, continua a ser válido no funicular. Mas não é nos eléctricos. Nestes, nem Andante nem meio Andante, paga-se 2,5 € por viagem.

O turismo de massas, tem uma face boa e outra perversa, predadora. A boa todos conhecemos. A má é o aumento do custo de vida para os residentes e a descaracterização da cidade, que poderia ser evitada se houvesse regras. No Porto já há exemplos disso, as barcaças travestidas de rabelos, com música e bandeirinhas. Agora até apareceram umas pintadas de amarelo e azul. A Ribeira está transformada num bazar igual a tantos outros que existem em qualquer parte do mundo. Repare que a praça desapareceu debaixo de toldos de esplanadas donde emerge, ridículo, o cubo. Estão a matar a galinha dos ovos de ouro.

margarida disse...

... dois euros e cinquenta cêntimos para andar de eléctrico meia dúzia de metros? Senhores! São quinhentos escudos! Mas anda tudo mesmo doido!
Já vinha a sentir aquele estranho desconforto de ver a cidade mascarada numa fantasia súbita e intensa, excessivamente veloz, como se a compensar décadas de marasmo, num deslumbramento pateta com as suas coisas de sempre, agora doiradas sob os flashes dos estrangeiros, mas não conseguia definir com clareza o sentimento, um bocadinho ambíguo, porque precisamos de desenvolvimento e dos outros, muitos e de bem, mas algo incomodava neste frenesim todo..., percebi o quê ao ler o que escreveu, Carlos: querem transformar uma cidade num parque de diversões de categoria duvidosa! Bolas...
É que tanto esforço e tanta qualidade, por causa de meia dúzia de palermices, podem ir-se rio abaixo...
Bom que existam cidadãos atentos como o Carlos. Obrigada pelo olhar analítico e objectivo.
De tantos confettis e alguma poesia (mais o inefável vinho do Porto, tão bom, tão bom...) podemos perder o norte...
:)

Carlos Romao disse...

Nos anos oitenta, de visita a Florença, tive a oportunidade de observar uma campanha promovida por um grupo de cidadãos, cujo lema era "Firenze non è Disneyland". Nessa altura deveriam debater-se com problemas idênticos aos que o Porto atravessa neste momento, devido à euforia turística.
Por cá há muita gente atenta mas não sei se chega. Um exemplo: a Douro Azul comprou os armazéns da antiga Real Companhia Velha (5000 metros quadrados) para lá instalar um "parque temático e interactivo" a que chamará "World of Discoveries". Miragaia será diferente depois da abertura deste "equipamento turístico" avaliado em 6 milhões de euros. Valerá a pena? É isso que queremos para uma freguesia com uma identidade tripeira tão marcada?

Carlos Romao disse...

A propósito da descaracterização da cidade há quem se tenha lembrado de deslocar a Ponte Maria Pia para o interior do quarteirão situado entre as ruas dos Bragas e Álvares Cabral. Diz-se que constituiria uma excelente atracção turística. Tem piada, porque não passa de uma provocação.