18 de janeiro de 2006

A Imagem da Cidade



Contemplar cidades pode ser especialmente agradável, por mais vulgar que o panorama possa ser. Tal como uma obra arquitectónica, a cidade é uma construção no espaço, mas uma construção em grande escala, algo apenas perceptível no decurso de longos períodos de tempo. O design de uma cidade é, assim, uma arte temporal, mas raramente pode usar as sequências controladas e limitadas de outras artes temporais como, por exemplo, a música. Em ocasiões diferentes e para pessoas diferentes, as sequências são invertidas, interrompidas, abandonadas, anuladas. Isto acontece a todo o passo.

A cada instante existe mais do que a vista alcança, mais do que o ouvido pode ouvir, uma composição ou um cenário à espera de ser analisado. Nada se conhece em si próprio, mas em relação ao seu meio ambiente, à cadeia precedente de acontecimentos, à recordação de experiências passadas. (...) Todo o cidadão possui numerosas relações com algumas partes da sua cidade e a sua imagem está impregnada de memórias e significações.



Os elementos móveis de uma cidade, especialmente as pessoas e as suas actividades, são tão importantes como as suas partes físicas e imóveis. Não somos apenas observadores deste espectáculo, mas sim uma parte activa dele, participando com os outros num mesmo palco. Na maior parte das vezes, a nossa percepção da cidade não é íntegra, mas sim bastante parcial, fragmentária, envolvida noutras referências. Quase todos os sentidos estão envolvidos e a imagem é o composto resultante de todos eles.



A cidade não é apenas um objecto perceptível (e talvez apreciado) por milhões de pessoas das mais variadas classes sociais e pelos mais variados tipos de personalidades, mas é o produto de muitos construtores que constantemente modificam a estrutura por razões particulares. Se, por um lado, podem manter-se as linhas gerais exteriores, por outro há uma constante mudança no pormenor. Apenas parcialmente é possível controlar o seu crescimento e a sua forma. Não existe um resultado final, mas somente uma contínua sucessão de fases. Assim, não podemos admirar-nos pelo facto de a arte de dar forma às cidades, visando um prazer estético, estar bastante distante da arquitectura, da música ou da literatura. Pode aproveitar delas grandes contributos, mas não pode imitá-las.

Kevin Lynch
in A Imagem da Cidade, Edições 70

28 comentários:

guevara disse...

esse livrinho ta sempre aqui!

amie disse...

estuda menina, estuda!
carlos, muito bom, as usual!a minha zona além do mais!:)

Lino Gomes disse...

A cidade, mais que qualquer outra coisa, somos nós :)

Milocas disse...

delicioso, como sempre, ver o Porto pelos teus olhos :)

CARMO disse...

Esse livro é excelente, mas as tuas fotografias batem tudo! É estranho ver fotografias tão boas de lugares onde todos os dias passamos e não valorizamos o que deviamos ver. Abraço!

relampago disse...

gosto mais das tuas fotografias.

pronto.


b.e.i.j.o.

Teófilo M. disse...

Aquelas quatro cadeiras sem uma mesinha no meio é uma inépcia de quem se preocupa com o mobiliário urbano, não é?

Mais uma vez, novas perspectivas de uma cidade que pensamos conhecer.

rps disse...

Não identifico a primeira foto.
A segunda é na Batalha, junto à Rua de Cimo de Vila, e a terceira é a velha Reitoria. Certo?

Pedro Estácio disse...

Olá Carlos,

Conheço o livro,e subscrevo!...

Qt às fotos, dizer o quê? Como sempre, surpreendentes e captando aquele ambiente, que a nossa cidade tem!

rps : A primeira fotos é da Av.Brasil (na Foz), junto à Indústria.

Grd Abrç,
Pedro Estácio

Funes, o memorioso disse...

Durou só quinze dias, o romance. O tempo suficiente para o pai dela me vender o velho Fiat 127 azul que foi o meu primeiro carro. Nele corremos toda a Avenida Brasil, a Foz, a Cantareira, a Alfândega, a Ribeira, toda a Circunvalação. Não fomos à Batalha. Descemos à Praça, subimos aos Leões, contornámos a antiga Reitoria e o Hospital de Santo António. Pelo largo do Viriato ladeámos o Palácio da Justiça. Seriam duas ou três da manhã quando, parados em frente oa jardim da Virtudes, a olhar a noite negra do Douro, trocámos o último beijo.

Carlos Romao disse...

Teófilo M.,
as cadeiras a princípio pareceram-me deslocadas, mas depois habituei-me a elas. São confortáveis e já me serviram de poiso para captar inúmeras fotografias.

RPS,
O Pedro Estácio já respondeu à sua pergunta, a primeira foto é no Molhe.

Funes,
e o velho 127, estava em bom estado? ;)

lazuli disse...

Dizia São Tomás: "eu devo esvaziar a minha alma para que Deus possa nela entrar."

Aqui, é o fotógrafo-poeta que imprime a sua escolha interior.

Giacomo disse...

Pois outra vez trocarei o calor dos lugares pelo calor das gentes.
É sempre muito mais agradável.
Abs.//

ivan (aka bandinho) disse...

nao sou do porto. nem gostava muito do port, confesso. pessoas como tu, fizeram-me olhar para onde devia. começa a surgir o bichinho de querer passar cada vez mais tempo aí...

Kraak/Peixinho disse...

Fotografias que nos fazem tocar naquilo que encontras, naquilo que os teus olhos viram, naquilo que soubeste dizer :)

Hugzz invictos

Guardiã de Sonhos disse...

A saltar de blog em blog vim dar a este, que não conhecia mas que vou adicionar aos favoritos. As fotos são lindíssimas, parabéns.

Carlos disse...

... sem palavras!

... sempre surpreendente!

... parabéns!

Xi

fabiana disse...

As fotos estão absolutamente fantásticas.

fabiana disse...

errata: são

lazuli disse...

passo aqui, revejo-te, admiro..e deslumbro-me!

Anónimo disse...

que tal Tuan e Bailly. têm notas fantásticas sobre a imagem e a percepção da cidade. parabéns pela ousadia de escrever sobre a cidade.

Funes, o memorioso disse...

Amanhã é quarta-feira, dia de post no "Cidade Surpreendente". Se as fotos forem da Igreja da Lapa, está desvendado um mistério.

Jorge Moreira disse...

Bela homenagem a uma cidade muito especial.
Grande Abraço,

Ernesto disse...

cordoaria...

um jardim rasgado...


abraço, Carlos

Funes, o memorioso disse...

O mistério adensa-se: será a foto no canto superior direito deste blog de Carlos Romão?
Os mitos não se desmontam com factos.
:)

Carlos Romao disse...

Funes, vou ao notário e venho já.

(para quem está fora do contexto, vejam lá o que me fizeram aqui: O Mistério Adensa-se. Isto faz-se a um cidadão sério, cumpridor e pacífico?)

:)

maresia_mar disse...

As coisas que tu escreves e as magnificas fotos que publicas aqui!! Mais palavras para quê??
Continuação de boa semana

a.leitao disse...

Tenho muitas fotos do Porto... mas quando vejo estas ... tenho "vergonha" das minhas!