19 de novembro de 2006

Latina, a livraria que tem Camões como patrono

Segundo uma crónica de Germano Silva, publicada no Jornal de Notícias há uns dois anos, Luís Vaz de Camões nunca terá passado pelo Porto. Era homem de outros percursos, doutras paragens semeadas de aventuras que aqui não encontraria.
A cidade, também, pouco o refere. Deu-lhe o nome a uma rua, ergueu-lhe um interessantíssimo, mas modesto, busto desgrenhado, virado ao vento sul do Atlântico num recanto da Avenida Brasil, e comemora-o no cunhal da Livraria Latina, casa de letras que o assumiu como patrono.

O Camões da Latina, que já aqui vimos, despeitado, a meter conversa com a figura feminina que se encontra na esquina oposta, do outro lado da Rua de Santa Catarina, é, imaginem, da autoria de alguém que, tendo formação de escultor, ficou conhecido como um dos pintores que melhor soube retratar o Porto, o aguarelista António Cruz. Deve-se a Henrique Perdigão, fundador da Latina em 1942, a substituição da figura de Mercúrio - companhia inadequada, na opinião do editor-livreiro - pela de Luís de Camões, na fachada da livraria.
Este preciosismo, que acabou por constituir uma boa homenagem da cidade ao nosso maior poeta, não é de admirar se nos aproximarmos um pouco de Henrique Perdigão. Era um literato, decidido, inovador, pleno de iniciativa, que dedicou vinte anos da sua vida à elaboração do Dicionário Universal de Literatura, obra prestigiada tanto em Portugal como no Brasil, onde ficou conhecido como Dicionário Perdigão.

Para comemorar a inauguração da livraria, Henrique Perdigão organizou um concurso literário, o primeiro realizado em Portugal. Abria assim também, de forma inédita, as edições da Colecção Latina que, em menos de três anos, poriam nos escaparates das livrarias quarenta novas obras - um prodígio para a época - de autores como António Botto, Teixeira de Pascoaes e João Gaspar Simões, entre outros.



Henrique Perdigão considerava a Latina como «a mais moderna organização livreira e editorial do país.» Ali podiam encontrar-se «livros de tudo e para todos, sobre Letras, Filosofia, Artes e Ciências e ainda tratados de Medicina, Cirurgia, Engenharia, Direito, indústrias têxteis metalúrgicas e eléctricas, contabilidade comercial, etc, etc.» Vendia ainda, por baixo de mão e com risco não despiciendo, livros políticos e outros proibidos pelo regime de Salazar, que incluíam autores como Jorge Amado, Raul Rego, Henrique Galvão, Cunha Leal e pasme-se... duas obras de Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam e Príncipes de Portugal.

A ele se deve a iniciativa da primeira página literária nos jornais do Porto, publicada em O Primeiro de Janeiro sob a direcção do jornalista Jaime Brasil. Mais tarde, O Comércio do Porto e o Jornal de Notícias seguir-lhe-iam as pisadas.

Morreria prematuramente, em 1944, numa das suas deslocações ao Brasil, país com que mantinha uma estreita relação afectiva, para comprar livros que divulgaria em Portugal. Sucedeu-lhe o filho, Mário Perdigão, que manteve a Latina no roteiro bibliográfico portuense durante 53 anos.





Uma das características da tradicional livraria era o enorme pé-direito, preenchido com livros até ao tecto, que, fazendo a delícia dos turistas, «impedia o acesso do público às obras», segundo Henrique Perdigão, neto homónimo do fundador, que assumiu a decisão da renovação da Latina há dois anos. As obras foram ditadas por «razões comerciais e de estabilidade da estrutura do edifício», acrescentou.



O novo espaço, que conjuga a leveza e a elegância permitidas por materiais como a madeira e o aço, mantém a emblemática parede, agora acessível, pejada de livros. Entretanto a livraria duplicou os títulos e aumentou a aposta nos livros temáticos. A avaliar pelas declarações do proprietário, a Latina está de novo, como quando foi fundada, com o olhar posto no futuro.

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28 de Novembro

Duas notas
Uma para recomendar a leitura da adenda de JRP, no Comboio Azul, ao que aqui se escreve acerca de Camões e o Porto.
A outra, para corrigir a data desta entrada, que foi publicada a 24 de Novembro. O dia 19 é a data da gravação de um rascunho inacabado.

7 comentários:

rps disse...

De facto, como sabe, CR, a minha livraria preferida no Porto. Não gostei das obras - resistência à mudança, pensarão alguns, mas o meu caro CR sabe que até sou adepto de outras renovações que se vão fazendo na cidade. Em todo o caso, tenho saudades da velha Latina, mas continua a ir a esta.

Não sabia quase nada do que nos conta, pelo que mais ainda apreciei o post. Curiosamente, há muitos anos, cruzei-me, numas férias de Verão, com o "actual" Henrique Perdigão, mas não sobraram contactos.

y_lune disse...

Eu sou contra o parar do tempo! e muito mais num espaço ligado à cultura!
Daí q aprecie profundamente o esplêndido espaço que mostra em fotos, como sempre, de grande qualidade!

Um belíssimo espaço, este dedicado aos livros! Esses livros que eu tanto gosto e sinto como 'objecto' quase de culto!

hfm disse...

Já tomei nota para quando aí voltar.

th disse...

Belíssimas fotos, como sempre, óptimo depoimento.
Abraço, th

Duarte disse...

Uma boa noticia...da gosto entrar num sito assim para comprar livros, convida...
No Porto existe, sem duvida, um credo que faz com que os seus habitantes não se possam queixar de bons locais donde poder perder-se, deleitando-se, enriquecendo-se culturalmente.

JRP disse...

Fiz uma pequena nota de rodapé ao que foi escrito sobre Camóes e o Porto no Comboio Azul!
;-)

cerveira pinto disse...

Caríssimo Carlos
Faz algum tempo que venho acompanhando este seu "surpreendente" espaço, no entanto sempre apenas como mero espectador. No entanto hoje sou compelido a participar, não só porque frequento a "Latina" há muitos anos, como aprecio as obras de renovação que a tornaram mais agradável e funcional, mantendo o seu "espírito" de sempre (o que denota a sensibilidade dos seus proprietários e do autor da obra - já agora, penso que seria também interessante saber quem é) mas, sobretudo, pela menção que faz ao pintor António Cruz. Não só porque era meu tio/avô, mas essencialmente porque muito poucos portuenses saberão quem é o autor daquele busto que ornamenta a entrada da rua mais famosa do Porto e que foi, como diz, um grande aguarelista, que soube retratar de forma única, luminosa e poética a luz desta cidade. Para mim esta foi de facto uma grata "surpresa". Bem haja.
Um abraço e até breve