22 de fevereiro de 2006

No Mercado Ferreira Borges

Há edifícios com sorte, como este.



Construído, entre 1885 e 1888, para substituir o Mercado da Ribeira, viu o seu destino alterado alguns anos depois.
Serviu de garagem, de cozinha dos pobres, esteve para ser museu, foi estufa e escapou por pouco ao destino do Palácio de Cristal, o camartelo. Foi mercado de frutas e depois abandonaram-no.



Em 1983 a Câmara fez o que devia, recuperou-o. Hoje presta bons ofícios como espaço «multi-usos», da cultura a eventos comerciais.



É pequeno, se o virmos pela bitola da actual mania das grandezas, mas tem uma escala humana. É leve, luminoso e arejado.
Foi inovador, quando nasceu, pelo emprego de novos materiais, o vidro e o aço.



Está decorado com motivos vegetais, combinados com ornatos animalistas.
Outra particularidade, as colunas, que servem de suporte da cobertura, funcionam no interior como condutas de águas pluviais, que posteriormente são encaminhadas para o rio.



Depois de tudo isto, digam lá se não é justo que, o Mercado Ferreira Borges, faça parte do imaginário do centro histórico portuense.

15 de fevereiro de 2006

Da Urbe e do Burgo - III

«No velho mundo, será difícil encontrar uma urbe tão singular, no ponto de vista somático como anímico. Sem risco de exagero, pode reputar-se uma das mais típicas, não diremos só da Ibéria, mas da Europa». A afirmação, que ilustra o apego que Sant'Anna Dionísio tinha pelo Porto, está patente no prefácio de Da Urbe e do Burgo.



Este afecto terá levado o autor, homem cosmopolita, a criticar o imobilismo então reinante, e a avançar com sugestões concretas para o progresso da cidade. Uma das suas propostas, a união dos concelhos à volta do Porto num único município, revelou-se premonitória, estando hoje na ordem do dia da actualidade política.



Outra, que o autor já havia explanado no volume IV do Guia de Portugal, da Gulbenkian, revestia-se de um certo carácter desenvolvimentista, próprio da época em que um Plano Director - o de Robert Auzelle, de 1962 - propôs a demolição de uma boa parte do centro histórico do Porto. Sant'Anna Dionísio não iria tão longe, mas a sua proposta de «construção de um viaduto, em granito, de seis ou sete tramos, e de quinze a vinte metros de largura de tabuleiro, que se lançasse entre o Largo da Cividade (ou da Sé) e o terreiro da Relação», não deixaria de ser considerada hoje, no mínimo, como insensata.

A ideia, no entanto, era tão cara ao pensador e cronista, que chegou a levá-la ao conhecimento do Presidente do Município, esperando que pudesse merecer-lhe algum estudo. Respondeu-lhe um «subordinado do Magistrado Supremo da Edilidade» que, num «breve bilhete-ofício», fez saber que a obra não teria qualquer «viabilidade de execução, pois o seu custo absorveria, por si só, uma verba aproximadamente equivalente ao orçamento total do Município».

O conceito do viaduto não seria, contudo, abandonado pelo escritor, que o fez ressurgir na capa do livro onde reúne cinquenta e uma crónicas por si escritas para o Primeiro de Janeiro, nos anos sessenta, através de uma ilustração de outro portuense ilustre, o pintor Carlos Carneiro, filho de António Carneiro cuja Casa-Oficina vale a pena visitar.

8 de fevereiro de 2006

Anoitecer nos Leões







(Insinuação de RPS, o blogamigo do Fado Falado)

Adenda
Em maré de insinuações, mais duas - uma do Teófilo e outra minha: há dois blogues novíssimos, para ver, sobre o Porto, A Esquina e o não sei pra mais.