8 de dezembro de 2008

Janelas do Tempo - III

Um instantâneo de Aurélio da Paz dos Reis em 31 de Janeiro

A figura central da fotografia abaixo - o homem inclinado, de cartola, casaca e luvas – serviu de símbolo na campanha de divulgação da exposição Manual do Cidadão Aurélio da Paz dos Reis, que esteve patente no Centro Português de Fotografia em Dezembro de 1998.

A mostra deu a conhecer ao grande público, creio que pela primeira vez, a figura ímpar desse portuense ilustre que, para além de ter sido o primeiro português a rodar a manivela de uma câmara de filmar em Portugal, foi também fotógrafo amador, revolucionário por idealismo e floricultor de profissão.

Se dos filmes que rodou poucos sobraram – foram queimados pelos filhos, que muito se devem ter divertido com a chama produzida pelos rolos de nitrato de celulose auto-inflamáveis – o seu espólio fotográfico, constituído por cerca de nove mil negativos e uns milhares de positivos, está hoje bem guardado no Centro Português de Fotografia.



Regressando à imagem, ao redor do cavalheiro da cartola com ar curioso há mais três personagens mirando a câmara fotográfica, aparelho que era uma novidade na época: um adolescente que figura com naturalidade envergando um chapéu palhinhas; um indivíduo que parece posar conscientemente para o retrato e uma figura feminina espreitando, protegida por uma sombrinha, que terá entrado no plano no último momento antes do disparo, completando o cunho instantâneo da imagem, uma das características das fotografias de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), por oposição, por exemplo, aos enquadramentos cenográficos de Domingos Alvão (1872-1946).

A avaliar pelos trajes dos personagens, a fotografia deverá ter sido tirada entre o final do século XIX e os primeiros anos do século XX. Provavelmente retrata um acontecimento social que terá concentrado aquela pequena multidão no cimo da rua, que então tinha o nome de Santo António. Após o 5 de Outubro de 1910 a rua passou a chamar-se 31 de Janeiro, por ali ter ocorrido um dos episódios mais aflitivos da primeira tentativa de implantação da República, em 1891, acontecimento que teve a participação de Aurélio, o nosso fotógrafo.



A grande diferença entre as duas fotografias, separadas por cerca de cem anos, é a substituição das pessoas por veículos automóveis. De resto, o primeiro e o segundo edifício, do lado direiro das fotos, são os mesmos, assim como os do fundo, onde se mantêm uma empena vazia e uma clarabóia como pormenores assinaláveis; o terceiro edifício foi substituído por outro mais alto, construído em betão. Completando as alterações, a fachada da Igreja de Santo Ildefonso foi revestida, em 1932, por azulejos do prestigiado ceramista Jorge Colaço.

7 comentários:

blue kite disse...

Que interessante!! Obrigada pelas fotos e pela explicação.

Maria Rego disse...

Como já nos agrada verificar que algumas coisas não mudaram...!
Tenho uma surpresa,vai ver.

Anónimo disse...

Adoro este tipo de trabalho, o então e o agora. Obrigada ao artista, que o és sem sombra de dúvida.A rua também foi palco, durante a visita de Humberto Delgado ao Porto a que eu assisti, a um banho de água branca pela PIDE...
Beijo, theo

Teófilo M. disse...

Pelo tamanho da multidão e a sua vestimenta deveria ser algo de importante.

Como seria bom voltar a ver pessoas em 31 de Janeiro em vez de a vermos ser utilizada como um parque de estacionamento.

Pobre Porto.

Duarte disse...

Grande é a nossa cidade, que ademais cobra uma maior dimensão, quando tudo está tão bem explicado e mostrado por ti.
Reconhecido, deixo o meu agradecimento por tal divulgação com um forte abraço.

Donagata disse...

Espectacular enquadramento e excelente lição da nossa história.

Continua com o excelente trabalho.

Um beijo grande.

Anónimo disse...

Blog muito interessante, muito útil...Pena é que andam por aí uns bloggers (diria oportunistas e nada profissionais), a "roubar" as suas ideias e fotografias...
Continue com o seu trabalho...é meritório.
Muitos parabéns, e tenha um Bom Natal!

Maria Fernandes