23 de janeiro de 2012

A Cerca Nova

Cerca Nova é a designação da muralha defensiva do Porto construída durante o século XIV, conhecida também por Fernandina. Nova por oposição à muralha primitiva que ao cercar apenas o morro da Sé, se tornou insuficiente para proteger a cidade que tinha crescido para além dos seus muros. A Cerca Nova, foi abordada pelo padre Agostinho Rebelo da Costa na sua Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, editada nesta cidade em 1789, que está disponível no Google Books, (e na Biblioteca Nacional Digital) a partir da qual foi feita a transcrição livre abaixo publicada.


«Em 41 graus e 10 minutos de latitude, 9 e 58 minutos de longitude próxima à foz do Rio Douro, que desagua naquela parte do oceano a que os antigos chamaram Atlântico Ocidental, está situada esta famosa cidade, segunda na grandeza, e na opulência entre todas as do reino. A sua figura contemplada dentro dos muros, imita um quadrilátero irregular de dois mil e seiscentos pés de comprido, e de mil oitocentos de largo. Firma-se sobre dois grandes, e dilatados montes, que são o da Sé e o da Vitória, ambos imediatos ao Rio Douro. Entre estes dois montes, medeia uma dilatada planície, que se divide em três vales sobranceiros uns aos outros: o primeiro, dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos; o segundo continua por toda a Rua Nova de S. Nicolau; o terceiro abrange a Ribeira, Fonte Taurina, e toda a Reboleira, até à Porta Nova. Pouca, ou nenhuma terra se verá em esta dilatada extensão, que não esteja povoada, e coberta de edifícios. O prospecto da cidade observado da parte meridional do Rio Douro, é bem semelhante a um anfiteatro.


Um elevado muro de quase três mil palmos de circunferência, e trinta pés de altura, abrange o seu interior. Todo ele é fortificado com parapeitos, ameias, e multiplicadas torres quadradas, que o excedem na altura de onze pés. O seu âmbito, é rasgado por muitas portas grandes, e levadas, que dão entrada, e saída ao povo, carros, seges, e tudo quanto é necessário para o serviço público. As maiores portas, e as de maior concurso, são a Porta Nova, a dos Banhos, Lingueta, Peixe, Ribeira, que faceiam com o rio; e para a parte da terra, a do Sol, Cima de Vila, Carros, Santo Elói, Olival, Virtudes. As três portas de Cima de Vila e do Olival, estão guarnecidas de quadradas torres, que se elevam trinta pés acima dos muros. Quási todas as portas, são igualmente guarnecidas com parapeitos, que lhes servem hoje de composição, e ornato. Em muitas delas residem continuamente diversos Corpos de Guarda Militar. Principia este dilatado muro no sítio chamado Porta Nova aonde faz um ângulo em modo de plataforma, que olha para o poente, e no qual está sempre um presídio de soldados: daqui discorre ao meio dia, quási em linha recta pela margem do Rio douro; e depois de formar uma varanda espaçosa de dois mil pés de comprimento, faceada de belíssimos edifícios, e disposta em forma, que serve de agradável passeio ao público, chega aos Guindais, e subindo pela parte do nascente até à graciosa Porta do Sol, vai terminar-se nas portas de Cima de Vila, que ficam, uma ao nascente, outra ao poente, outra ao sul. (*) Logo principia a descer pela íngreme calçada a que chamam da Teresa até à Porta de Carros. Esta porta, que é a mais frequentada de todas da cidade, foi aberta no ano de 1521, como consta da seguinte inscrição gravada em uma grande pedra, que está no alto do seu arco:

REGNANTE DIVO EMMANUELE,
QUI PRIMUS PORTUGALIAE REGUM
AD MARE USQUE INDICUM, ET
SCYTICUM LUSITANIAE IMPERIUM
PROPAGAVIT, APERTA FUIC HAEC
PORTA SIMULC VIA, QUAE HINC
IN SANCTI DOMINI TEMPLUM
DUCIT, INDUSTRIA ANTONII
CORREA HUJUS PROVINCIAE CORRECTORIS.
1521

Desde esta porta, continua o muro sucessivamente até à de Santo Elói, e daí começa outra vez a subir; e em chegando à grande Porta do Olival faceia com o largo da Cordoaria, desde a Porta das Virtudes, à da Esperança, e finaliza no Forte da Porta Nova em que teve princípio. Não devem estes muros a sua fundação, como alguns dizem, ao Arcebispo de Braga D. Gonçalo pereira; mas a D. Afonso IV, D Pedro I, e D. Fernando, reis de Portugal. A sua fábrica durou quarenta anos, e por esta causa ocupou as vidas daqueles três monarcas.

(*)Chamam-se também as Portas da Batalha, e como tais as descrevo no capítulo anterior.»

4 comentários:

mfc disse...

Belíssimas fotos de um tempo que nos situa na História!

Duarte disse...

Excelente documento historico, dum sitio que me agrada... ver o Douro desde aí, entre a Batalha e a Ribeira, ao som do funicular dos Guindais, cativa.

João Menéres disse...

Devidamenteapreciado este seu post.
E as imagens estão muito bem.

Um abraço.

Fernando Ribeiro disse...

Conclui-se, portanto, que a designação Muralha Fernandina é enganadora, dado que a decisão sobre a construção desta cerca não se deve a D. Fernando, mas sim a D. Afonso IV.

D. Afonso IV foi de certo modo amaldiçoado pelos portugueses, por ter mandado matar Inês de Castro, mas a verdade é que ele até foi um grande rei, pois combateu os abusos da nobreza e reforçou o poder dos municípios e dos burgueses, o que se viria a revelar de fundamental importância para a defesa da independência nacional em 1383-85.