03 dezembro 2010

Há algo podre no vale do Tua

«Daniel Conde, no Diário de Notícias (via A Baixa do Porto):

"Há algo de podre no vale do Tua, e não é o fantasma do futuro a trazer um travo a esgoto das águas eutrofizadas da albufeira do Tua.
Há algo de errado quando um Estudo de Impacto Ambiental e um Relatório de Conformidade Ambiental de Projecto de Execução (RECAPE) afirmam numa base científica que a barragem vai ser desastrosa a nível regional e insignificante a nível nacional, mas a barragem avança.
Há algo de errado quando a Linha do Tua tem vindo a ser abandonada ou mesmo mencionada no caso Face Oculta, mas a culpa da má manutenção da via e estações é atirada como que para os próprios utentes que a utilizam. Há algo de muito errado quando um consultor da UNESCO afirma deslumbrado que a Linha do Tua tem todas as condições para ser considerada Património da Humanidade, reiterando o que disse o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Ifespar) sobre o seu valor patrimonial único, mas depois os ministérios do ambiente e da cultura (e depois o próprio Igespar) concluem que nem o vale nem a Linha do Tua têm valor patrimonial ou ambiental algum, arquivando com uma celeridade desconcertante o processo de classificação desta como Património Nacional.


Algo não está bem quando os comboios da Linha do Tua ficam sobrelotados de turistas, quando o Plano Estratégico Nacional de Turismo e o Plano Regional de Ordenamento do Território do Norte prevêem maravilhas turísticas para esta região, e quando um projecto de turismo ferroviário para a Linha do Tua fica em terceiro lugar num concurso nacional de empreendedorismo, e a CP e a Refer fecham as portas à sua exploração turística.
Algo de muito errado se passa quando com um projecto ferroviário de baixo custo se poria um madrileno em Bragança em duas horas, e nos debates havidos em Trás-os-Montes sobre desenvolvimento ninguém diz uma palavra sobre caminhos-de-ferro.
Muito mal vai o estado da Democracia quando a voz de 18 mil peticionantes contra a construção da barragem do Tua e a favor da reabertura, modernização e prolongamento da Linha do Tua, defendendo inclusivamente métodos alternativos mais baratos e mais eficientes de produção e poupança de energia, não é ouvida ou não é suficiente para calar a de meia dúzia de indivíduos mal intencionados e de carácter duvidoso.
A lista de incongruências, atropelos, e laivos de actividades amplamente contempladas no Código Penal avoluma-se. Vagas de estudos científicos e pareceres de especialistas - de entre os quais UNESCO e Comissão Europeia - que apontam um severo dedo à barragem do Tua e coroam de louros o vale e a Linha do Tua, esboroam-se com um rumor de espuma do mar contra sabe-se lá que perigosos rochedos e contracorrentes.
Chegados a este ponto é lícito perguntar: em que mundos vive o Ministério Público e a PJ, ou será que o vale e a Linha do Tua é que já não pertencem a este mundo? Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto fede...»

05 novembro 2010

As Quatro Estações

(de Marques da Silva)



A Primavera...



...o Verão...



...o Outono...



...e o Inverno...



...no número 100 da Rua das Carmelitas.

01 novembro 2010

Um abraço para António Rebordão Navarro

Um abraço para António Rebordão Navarro é o título da homenagem, promovida pela Sociedade Portuguesa de Autores, que decorrerá no Museu Nacional de Soares dos Reis, quarta-feira, 3 de Novembro, pelas 18h30.



Sobre Rebordão Navarro, que nasceu no Porto em 1933, diz-nos o sítio As Tormentas: foi director da revista Bandarra, fundada pelo pai, o escritor Augusto Navarro, em 1953, e da revista Notícias do Bloqueio. Na sua obra ficcional, repartida pelo romance, conto e impressões de viagem, retrata ambientes de província, caracterizados pela opressão e pela estreiteza de horizontes. Disso são exemplo os romances Um Infinito Silêncio (1970), que descreve aspectos da vida portuense ou ambientes bizarros e exóticos, como Macau, e As Portas do Cerco (1992).
Na sua obra, Rebordão Navarro apresenta quase sempre uma visão sarcástica e irónica da realidade. A sua poesia, reunida no volume A Condição Reflexa (1989), recorre constantemente à vivência do quotidiano, a que não é alheia a influência do neo-realismo da década de 50, altura em que António Rebordão Navarro publica os seus primeiros livros de poemas. Dedicou-se também à escrita de peças teatrais, das quais se destaca O Ser Sepulto (1995), peça que denota a influência do teatro do absurdo. Outras obras importantes do autor no domínio da ficção são as narrativas O Discurso da Desordem (1972), O Parque dos Lagartos (1982), Mesopotâmia (1985, Prémio Miguel Torga), Praça de Liège (1988, Prémio Círculo de Leitores), Dante Exilado em Ravena (1990) e Parábola do Passeio Alegre (1995).


Na homenagem participam José Jorge Letria, João Lourenço, Célia Vieira e Helder Pacheco. Haverá leituras pelo actor António Durães, e música a cargo da pianista Sofia Lourenço e da soprano Maria João Matos.

19 outubro 2010

Um jipe, dos autênticos, nos Clérigos



Fiel como um cachorro, forte como uma mula e ágil como um cabrito. Foi com esta expressão que um jornalista definiu, um dia, o desempenho do jipe Willys durante a II Guerra Mundial. Começou a ser fabricado nos Estados Unidos em 1941 e em 1944 passou a integrar o exército português. Trinta anos depois, aquando do fim da guerra colonial, ainda havia inúmeros destes veículos, versáteis e resistentes, nas ex-colónias portuguesas. O que me surpreendeu, há dias, foi ver este exemplar do esplêndido Willys, que terá setenta anos, a descer, ágil como um cabrito, a Rua dos Clérigos.

16 outubro 2010

Paisagens do Douro - Nagoselo


Aqui, o Douro corre liberto dos apertos pedregosos do Cachão da Valeira. Estamos em Nagoselo, no miradouro da Senhora de Lurdes. Próximo do centro da imagem observamos a estação ferroviária do Tua e, ao fundo, antes da curva do grande rio, o vale estreito donde o Tua vem desaguar no Douro. Se fosse possível seguir o curso do rio pela imagem encontraríamos, quatro curvas abaixo, a vila do Pinhão.
Clique na imagem para ampliar.

15 outubro 2010

Paisagens do Douro - S. Salvador do Mundo


Não fora a vegetação, na base da imagem, e, do alto deste miradouro ver-se-ia, como outrora, a 500 metros de profundidade, o local do célebre Cachão da Valeira, um desnível pedregoso que impediu a navegação do Douro para montante até 1792, ano em que foi concluído o seu desmantelamento. A demolição deste obstáculo, que é hoje considerada a primeira grande obra hidráulica no rio Douro, permitiu que o plantio de vinhedos se estendesse até à fronteira espanhola. Antes, o cultivo da vinha era, ali, impraticável pela dificuldade do transporte. O vinho para ser exportado teria de ser levado, em carros de bois, até às alturas da Pesqueira, e daí descer ao Pinhão para embarcar, em rabelos, para Gaia.

Depois da curva da cachoeira, que hoje, após a construção da barragem da Valeira, em 1976, estaria submersa, o Douro corre para ocidente com as margens menos apertadas, como veremos amanhã do alto de outro miradouro, tal como este, situado no concelho de S. João da Pesqueira.
Clique na imagem para ampliar.

11 outubro 2010

Texturas do Douro





O ciclo da vinha está a chegar ao fim. As uvas estão colhidas e as folhas, que começaram a amarelecer, acabarão por cair. Não tarda, as plantas entrarão num período de repouso vegetativo, despontando para um novo ciclo de vida apenas na Primavera.

Na foto do cimo vemos um vinhedo ao alto, em Provesende, na sub-região do Baixo Corgo, entre Sabrosa e o Pinhão. Na outra, em S. João da Pesqueira, próximo de Ferradosa, Cima Corgo, a vinha cresce em patamares emoldurada por olivais, o que é comum no Douro, onde os pequenos produtores têm um enorme contributo na produção de Vinho do Porto.

Sobre a Região Demarcada do Douro, as sub-regiões em que está dividida e ainda o plantio da vinha “em socalcos”, “em patamares”, ou “ao alto”, consulte o documento A paisagem do Alto Douro vinhateiro: evolução e sustentabilidade , de Teresa Andresen.

08 outubro 2010

Dois banqueiros da Rua das Flores





António Coimbra & Irmão, Banqueiros
e L.J. Carregosa e Cª. Lda., são dois indicadores da importância que a Rua das Flores teve outrora, rua onde a Misericórdia do Porto e a Casa da Companhia, símbolos de poder, coexistiram, a par de residências nobres ou burguesas, com mercadores, joalheiros, ourives e banqueiros.

Do primeiro, desapareceu recentemente a inscrição gravada na pedra da fachada do nº 308, na Rua das Flores. Era um grafismo de época, dourado, muito interessante, que foi levado pela reabilitação do quarteirão Mouzinho-Flores. Pode ser visto no blogue aqui ao lado, A Cidade Deprimente.

Quanto ao segundo, permanece no nº 278 daquela rua. A L.J. Carregosa e Cª. Lda., foi uma casa de câmbios, fundada em 1833, que está na origem do Banco Carregosa. Não tem grande actividade, mas o banco mantém-na de portas abertas prestando informação bolsista aos clientes, digamos, por uma questão de prestígio. Resta saber por quanto tempo se manterá assim e, também, o que a Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo, tem reservado para aquele espaço.