A cidade, também, pouco o refere. Deu-lhe o nome a uma rua, ergueu-lhe um interessantíssimo, mas modesto, busto desgrenhado, virado ao vento sul do Atlântico num recanto da Avenida Brasil, e comemora-o no cunhal da Livraria Latina, casa de letras que o assumiu como patrono.

Este preciosismo, que acabou por constituir uma boa homenagem da cidade ao nosso maior poeta, não é de admirar se nos aproximarmos um pouco de Henrique Perdigão. Era um literato, decidido, inovador, pleno de iniciativa, que dedicou vinte anos da sua vida à elaboração do Dicionário Universal de Literatura, obra prestigiada tanto em Portugal como no Brasil, onde ficou conhecido como Dicionário Perdigão.
Para comemorar a inauguração da livraria, Henrique Perdigão organizou um concurso literário, o primeiro realizado em Portugal. Abria assim também, de forma inédita, as edições da Colecção Latina que, em menos de três anos, poriam nos escaparates das livrarias quarenta novas obras - um prodígio para a época - de autores como António Botto, Teixeira de Pascoaes e João Gaspar Simões, entre outros.

Henrique Perdigão considerava a Latina como «a mais moderna organização livreira e editorial do país.» Ali podiam encontrar-se «livros de tudo e para todos, sobre Letras, Filosofia, Artes e Ciências e ainda tratados de Medicina, Cirurgia, Engenharia, Direito, indústrias têxteis metalúrgicas e eléctricas, contabilidade comercial, etc, etc.» Vendia ainda, por baixo de mão e com risco não despiciendo, livros políticos e outros proibidos pelo regime de Salazar, que incluíam autores como Jorge Amado, Raul Rego, Henrique Galvão, Cunha Leal e pasme-se... duas obras de Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam e Príncipes de Portugal.
A ele se deve a iniciativa da primeira página literária nos jornais do Porto, publicada em O Primeiro de Janeiro sob a direcção do jornalista Jaime Brasil. Mais tarde, O Comércio do Porto e o Jornal de Notícias seguir-lhe-iam as pisadas.
Morreria prematuramente, em 1944, numa das suas deslocações ao Brasil, país com que mantinha uma estreita relação afectiva, para comprar livros que divulgaria em Portugal. Sucedeu-lhe o filho, Mário Perdigão, que manteve a Latina no roteiro bibliográfico portuense durante 53 anos.


Uma das características da tradicional livraria era o enorme pé-direito, preenchido com livros até ao tecto, que, fazendo a delícia dos turistas, «impedia o acesso do público às obras», segundo Henrique Perdigão, neto homónimo do fundador, que assumiu a decisão da renovação da Latina há dois anos. As obras foram ditadas por «razões comerciais e de estabilidade da estrutura do edifício», acrescentou.

O novo espaço, que conjuga a leveza e a elegância permitidas por materiais como a madeira e o aço, mantém a emblemática parede, agora acessível, pejada de livros. Entretanto a livraria duplicou os títulos e aumentou a aposta nos livros temáticos. A avaliar pelas declarações do proprietário, a Latina está de novo, como quando foi fundada, com o olhar posto no futuro.
_________________
28 de Novembro
Duas notas
Uma para recomendar a leitura da adenda de JRP, no Comboio Azul, ao que aqui se escreve acerca de Camões e o Porto.
A outra, para corrigir a data desta entrada, que foi publicada a 24 de Novembro. O dia 19 é a data da gravação de um rascunho inacabado.