7 de agosto de 2006

Agosto no Porto

Primeiro vem a ameaça, no mês de Julho, com fogos de média dimensão um pouco por todo o distrito, a anunciar a catástrofe.


O céu a nordeste...

Quando chega Agosto basta a temperatura subir um pouco e o inferno aí está, invariavelmente, espelhado no céu. Foi assim no Sábado e no Domingo. O fumo no ar, a atmosfera irrespirável, o cheiro a madeira queimada que penetra em tudo...
Hoje de manhã, porém, o horror foi maior - como se fosse possível. O Sol, de um dia anunciado com céu azul e limpo, nasceu encoberto por um espesso manto de fumo, entre o negro e o amarelado da luz solar, que cobriu a cidade e fez as aves recolherem.


... e a noroeste

O monstro estendia-se por quilómetros, de nascente a poente, e ali esteve durante horas, ameaçador, largando cinzas ao vento. Depois dissipou-se em neblina, pairando ainda por aí neste fim de dia sufocante em que a rotina voltou a instalar-se.
Ontem em Paredes, hoje em Valongo, amanhã... não interessa. Já não acredito. É assim há anos. O festim dantesco continuará a desenrolar-se em Agosto, perante a indiferença e a inconsciência colectiva, até que se instale o deserto e nada mais haja para arder.

17 comentários:

th disse...

O homem devia aprender com a natureza, a respeita-la: há elementos com os quais não se pode brincar, facilitar, são mais fortes que ele. As cheias na Etiopia, os fogos na Península...
(lol...mas hoje é 2ª feira!)
Um abraço, th

Anónimo disse...

ontem fui até aguiar e vi o cenário por paredes fora, metia medo mas estava-me distante, hoje acordo de manha com as sirenes em cima de minha casa um cheiro a fumo insuportavel o vento a parecer crescer cada vez mais o fumo a entrar pela minha boca dentro o patio da casa cheio de cinzas que me entravam nos olhos eu a querer correr mas a perder as forças e a asfixiar mulheres a chorar ca fora homens a correr aos berros a levar tudo na frente e o fumo espesso mesmo em frente aos meus olhos. De um momento para o outro a minha freguesia que fica exactamente entre valongo e gondomar apanhou com todas as frentes de fogo possíveis e eu vi a minha antiga escola ameaçada, casas de amigos prestes a arder, as labaredas, mulheres a chorar garagens a arder cinzas a entrar-me nos olhos bocados de madeira incandescentes a caírem-me aos pés o trânsito cortado, não se saber o que se passa daquele lado com aquelas pessoas que sempre conhecemos aflitas em correntes de baldes de água, o triste autocarro da minha adolescência a imagem dele aflito a dar a volta mais cedo no meio dum fumo insuportável e com as labaredas como background. Acreditem, é diferente sentir o cheiro, passar em viagem, ver em imagem, e acordar de manhã entre um histerismo e pânico tal fumo por todo lado o medo de perder a nossa casa o nosso lar o medo que isso aconteça a outros, aqueles que conhecemos por onde passamos.. foi esta a minha mãe nesta cova miserável, s.pedro, um nada perto de tudo no porto. acordo de manhã sem nunca imaginar que tal coisa de repente surgisse. continua a arder embora mais controlado perto das casas. porque já ardeu tudo. o medo agora é que o pouco que arde chegue às antigas minas de carvao do salazar...medo enfim, e o meu gato preto obliviamente a dormir coberto de cinza..

ritix disse...

o Porto dantes não era assim, pois não?...

Bart Simpson disse...

é terrível. não só no Porto, minha cidade, como em todas as que são visitadas por este fenómeno que de natural tem relativamente pouco...

Carlos Romao disse...

Th,
pois... hoje é segunda-feira mas o acontecimento, apesar de mão ser característica deste blogue, sobrepôs-se ao calendário de actualizações semanais às quartas-feiras.
Um abraço.

Caro anónimo de S. Pedro da Cova,
O seu testemunho é aterrador.
Apesar do tom do post, eu não me conformo com a inevitabilidade dos incêndios. Sinto-me é revoltado ? como muitos de nós - por não se conseguir acabar com este trágico carnaval de Agosto, o que gera em mim um sentimento de impotência.
Resta-me deixar-lhe a minha solidariedade.

Ritix,
Não, dantes nem o Porto nem o país eram vítimas, a esta escala, do fogo que, como diz o Bart Simpson, tem causas pouco naturais. A natureza não entra em ignição com facilidade. Como se sabe, os fogos são produto do descuido de uns - poucos - e das intenções criminosas de outros - muitos.

Tiburcius disse...

Apelo a toda a gente ir ao meu blog para mandar a sua opinião aos meus dois últimos posts. É importante!
As vossas opiniões contam e eu conto com elas.

Lurdes disse...

Infelizmente é isto que acontece todos os anos! Todos os anos... tem piada, não sei se é de mim mas não me lembro disto quando era pequena... seria demasiado nova pra ligar a essas coisas?!?! Cresci em Trás-Os-Montes e apesar de agora ser também o pão nosso de cada Verão, não tenho ideia de isto acontecer com esta frequência e proporções há digamos 20/25 anos atrás... Parece-me que alguém descobriu a pólvora mas com fumo, com muito fumo!
Também aqui em Matosinhos o céu tem estado encoberto pelo fumo, o cheiro tem sido avassalador e os restos do que ardeu/arde é trazido pelo vento... é triste, é muito triste. Mas mais triste é esta repetição anual como se de uma coisa muito natural se tratasse!

M A R I A N E disse...

"(...)Para mim o grande crime da humanidade é que ela não sente mais. Ela não sente o outro como irmão ou irmã e por isso pode deixar mais de dois bilhões passando fome e miséria e ver ecossistemas devastados.(...)" Palavras sábias do Leonardo Boff...

miosotis disse...

Um cenário confrangedor, um povo q não mais aprende a respeitar-se para poder respeitar os outros e o mundo q o rodeia.

Começo a sentir tristeza pelo país q é meu!

Ñ vejo mais o dia em q as mentalidades mudem, em q se puna quem actua contra o 'património' natural nacional q ñ é mais do q uma parte do enorme 'património natural' q é a Terra.

"Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,"[...]

Sophia Mello Breyner, 'Cidade'

saudações

augustoM disse...

Custa a compreender esta realidade, não há mesmo nada que se possa fazer para ela não acontecer.
Um abraço. Augusto

Berna Valada disse...

Sim, há algo a fazer. A educação começa em casa!

Álvaro Mendonça disse...

?Judiciária suspeita de fogo posto em 543 incêndios? titula o Jornal de Notícias na primeira página de hoje, dia 9 de Agosto. Urge saber toda a verdade sobre esta catástrofe incendiária. Quais as verdadeiras razões? Há quem aponte a negligência como causa próxima. A avaliar, contudo, pelas suspeições que diariamente se levantam, a realidade parece ser outra bem diferente.
Seja como for, Portugal não pode continuar a assistir a este demoníaco bailado das chamas. Impeça-se, de uma vez por todas, esta tragédia colectiva. Os portugueses têm direito a saber o que estimula esta gente incendiária. Haja coragem para punir severamente e sem eufemismos, os verdadeiros responsáveis por esta barbárie; saber se actuam por razões patológicas, se são de facto negligentes, se agem por vandalismo gratuito, ou se são pagos, e a soldo de quem. Ninguém pode ficar indiferente à calamidade pública a que estamos a assistir. Portugal está a ficar muito, muito feio.
Álvaro Mendonça

Gisela disse...

Caro Carlos

O que está a acontecer ao nosso distrito? A economia fala mais alto?
Proponho aqui a criação de uma comissão permanente de cidadãos (não necessariamente oficial)que mantenham a vigilância por longos periodos, dos terrenos ardidos. Seria uma garantia de que não haveria motivações de ordem económica para deflagrar qualquer incêndio.

solas_na_mesa disse...

aterrador, de facto. E este fenomeno não sendo antgo, apenas recentemente atingiu estas proporções. o ano passado vi uma bouça do meu pai arder à minha frente e o comentário que ouvia era "é estranho é não ter ardido antes"...

estranho país... moldado por gente muito estranha...

Segundo li, nos ultimos 20 anos ardeu 20% da floresta portuguesa. Isso é mau, mas muito pior é o facto de não haver forma (ou vontade, capacidade) de alterar este estado de coisas.

Ricardo
http://solasnamesa.blogspot.com/

Nuno Carvalho disse...

Realmente a partir de JUlho quase não vemos o sol devido ao fumo, será que isto nunca mais acaba?
Posso ser visitado em http://recantosdeportugal.blogspot.com

Mendes Ferreira disse...

um céu em fogo o porto no céu. um beijo.

Mikas disse...

As fotos estão óptimas...