28 de janeiro de 2005

Testemunha do Tempo



Do alto de um frontão triangular, o busto de uma figura feminina com o barrete frígio, símbolo republicano, domina quem passa numa rua com nome fidalgo, o do Morgado de Mateus.

Certamente foi colocada naquela posição dominante, pelo dono da casa, para celebrar a vitória do ideal republicano sobre a monarquia em 1910. Imóvel, sorridente e em silêncio acabou por presenciar a história do século XX.

Desiludiu-se com os desvarios da 1ª República e os sucessivos levantamentos populares e militares. Assistiu à desastrosa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial; ao surto de gripe pneumónica, que matou 100 000 pessoas em 1918; à primeira travessia aérea do Atlântico Sul e à generalização do automóvel e da camionagem nos anos 20; ao surgimento do cinema, o mudo primeiro e mais tarde, já no sossego tumular da ditadura, o sonoro. «Onde vais Isidoro? Vou ao sonoro!» - era um dito popular nos anos 30. Ouviu as primeiras emissões regulares da Rádio. Atravessou o racionamento na II Guerra Mundial, porque as armas do conflito só nos tocaram lá no fim do Império, em Timor. Admirou-se com o advento da televisão e exultou com o regresso da República em Abril de 1974.

Testemunha do tempo, contempla hoje, impávida e serena, a chegada da sociedade da informação e do saber, sem se perturbar com a crise de valores orquestrada pelo cortejo mercantil neoliberal.

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