4 de janeiro de 2005

Um Chá nas Nuvens



Ainda no Guia de Portugal (1), o autor relata-nos um curioso episódio, uma acção de «propaganda comercial» da fábrica de moagens Invicta, ocorrido em 1917, o escalamento da Torre dos Clérigos.

«O barroquismo da torre é tal que o seu acesso, pelo exterior, embora constitua um prodígio de temeridade, se tornou um facto em 28 de Out. de 1917. Foi a proeza de dois escaladores e acrobatas, os espanhóis Puertullanos, pai e filho, trazidos ao Porto nessa data pelo técnico de propaganda comercial, Raul Caldevilla, para criar o renome de alguns produtos da fábrica de moagem Invicta. Com excepção de um lanço de oito ou dez metros, entre o 2º e o 3º piso, onde o acrobata correu risco tão iminente que a multidão estremeceu (lanço liso e que não oferece possibilidade de escalamento sem cordada) o ginasta (o filho) diante de uma enorme multidão angustiada que se apinhava no largo fronteiro e no jardim da Cordoaria, venceu a sós e a pulso as sucessivas pilastras, cornijas e volutas, atingindo no fim de meia hora a esfera. A partir do último campanário, a escalada foi feita por ambos. Alcançado o cruzeiro de ferro, os dois equilibristas, cada um no seu braço, instalaram nele uma pequena mesa sobre a qual tomaram chá com bolachas e espalharam revoadas de prospectos sobre a cidade. A descida, feita de novo pelo exterior da torre, constituiu talvez proeza ainda mais arriscada e difícil do que a ascensão. Se Nasoni tivesse assistido, julgar-se-ia ludíbrio de um sonho.
Dessa escalada se fez um dos primeiros filmes portugueses, intitulado Um Chá nas Nuvens, iniciativa do mesmo Caldevilla.»


(1) Dionísio, Santana /Guia de Portugal, Entre Douro e Minho - I. Douro Litoral / 3ª ed./ 4º vol./ Fundação Calouste Gulbenkian / sd

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