30 de junho de 2005

A Noite do Porto



Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há-de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflecte nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão-de voltar
a nascer: Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.

Nuno Júdice

27 comentários:

Cláudio Alves disse...

Caramba!... E continuas mesmo a surpreender. ... :)

(in)confessada disse...

Se n fosse já completa e irremediavelmente apaixonada pelo Porto, tinha ficado agora mesmo.

mais uma vez, adorei!


bjo confessadamente invicto...

olhar_interior disse...

Sempre surpreendente!!!!
Parabens mais uma vez. Fiquei morrendo de vontade de ter estado no Porto para as Festa Joaninas!

ruben disse...

Porto a metropole que não é cidade, a cidade que não é metropole...Tão diferente.

Pedro Estácio disse...

Ò pra mim ali a entrar para a Alfândega, para + um expo :)

Carlos, não paras de nos surpreender com as tuas fotos!

O Porto em todo o seus esplendor1 Que cor!.. Mais um fim de dia na Inbicta, perdão, Invicta :)

correioverde disse...

Foto linda. Do sítio de onde mais vezes tentei tirar fotos do porto à noite. Não sei se das luzes, se da Alfândega, se da curva do rio... deslumbra-me particularmente. Provavelmente de tudo isso. Porque o Porto é conjunto, mas pela soma de tantos detalhes bonitos.
Obrigada por me ajudares a manter ainda mais presente a paixão pelo Porto, embora assim seja mais difícil não ter vontade de voltar.
Tem um bom dia. Beijinhos,
Ana

guevara disse...

Podia....
Podia tudo...
Mas nem cá chegou!

=/

ÇÃO disse...

que emoção
Que Emoção
QUE EMOÇÃO

amie disse...

Pois podia...e teria sido feliz, seguramente!:)

Freddy disse...

Azar do Shakespeare e muita sorte a minha...
MESMO!!!

Abraço da Zona Franca

th disse...

Como seria bom se tudo fosse bonito assim...eu vi outras coisas e fiquei um pouco triste, amarga, a realidade! não deixei de o amar, mas o Porto precisa urgentemente de um banho de beleza! acabo de escrever sobre isso...
th

Sergy disse...

Linda, a minha cidade

D. disse...

?Andaime do Pessoa face ao Báltico?

Autor: Fernando Alves - DN, 03.Jul.2005

«Gosto de me sentar, diante do Bugio, a ver a arquitectura dos navios. E os cargueiros são, aos meus olhos, as mais belas moradas sobre as águas. Eles têm, tal como as casas alentejanas, a "geometria essencial" de que falava Sophia. Há muito tempo, eu quis morar numa casa assim. Ou zarpar, no convés de um cargueiro.

Isso aconteceu quando, da minha varanda, se via a serra de Sintra. Entretanto, a betoneira não parou e ocultou-me o reino de duendes. E o meu sonho naufragou numa paisagem triste, diante do assobio do Guardador de Rebanhos, do Caeiro "Na cidade, as grandes casas fecham a vista à chave,/Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu."

Chegou-se, na imensidão em redor, a tal impunidade do pato- -bravismo que admito dar o meu voto, em Outubro, sem hesitar, a um edil capaz de um razoável programa de implosão urbana ou que, pelo menos, se comprometa a não deixar erguer nem mais um prédio até cabal contenção do desastre.

De tanto assistir a construção em fealdade, deixei, entretanto, de encarar com a antiga reserva a construção em altura.

Tomei como boas as regras de Vitrúvio, utilitas, venustas et firmitas, ancoradas a uma teia de novos saberes e novas ousadias.

Um dia, maravilhei-me com o edifício do Banco da China e a restante montra de arquitectura que é a baía de Hong Kong, vista de Kowloon.

A ideia de casa mudou no sótão da minha cabeça. Passei a gostar de edifícios que rompam as nuvens, tão altos que toquem os joelhos de Deus ou inacessíveis a patos-bravos, mesmo com escadote.

Estava, assim, dado a cogitações quando soube, esta semana, que Turning Torso, a torre residencial de 190 metros de altura que Calatrava projectou para o porto de Malmoe, fica pronta antes do Natal. Turning Torso justifica, por si só, uma viagem ao Báltico. Googlemos, entretanto, para sabermos ao que vamos.

Calatrava costuma dizer que quem não sabe anatomia dificilmente será um bom arquitecto. Ele sabe anatomia e acredita que "o corpo humano é um templo". Partindo deste quadro conceptual, o valenciano inspirou-se numa sua antiga escultura que representa o corpo humano em movimento e foi erguendo aquilo que, no número de Junho da revista Construcción y Tecnologia, Enrique Chão define como "uma graciosa escultura habitável de betão e aço que dança, desafia a imaginação e leva os materiais a formas extremas; um sonho dos construtores renascentistas finalmente convertido em realidade".

O traço de Calatrava vai, mais uma vez, a níveis de complexidade que são do âmbito da engenharia de estruturas e, não em menor escala, do da poesia. Turning Torso é o movimento do corpo humano em 54 pisos que se organizam em nove blocos com a forma de um cubo, cada qual com cinco pisos, rodando até onde a coluna vertebral permite, 90 graus da base ao topo. Do miradouro, no piso 49, vê-se Copenhaga. É outra maneira de ver a serra de Sintra.

Há nesta estrutura - que alguns dizem parecer uma toalha torcida por um gigante - a tentação vitruviana da figura humana mas, também, a obediência a uma lei primordial que corre os versos de Sophia "Construirás - como se diz - a casa térrea. Construirás a partir do fundamento." É como se Calatrava fosse buscar Fred Astaire e Ginger Rogers, que inspiraram a Casa Dançante de Praga, e os unisse num estranho bailado ao Homem de Vitrúvio de Leonardo da Vinci. E Turning Torso, a dança de betão e aço e vidro desenhada pelo "olho que pensa", acolhesse, em plenitude, o ser interior que, para Bachelard, toda a casa é.

Eu gosto muito de Calatrava e até lhe perdoo o frio que se apanha, à espera de um comboio, sob as palmeiras da Gare do Oriente.

Passado o tempo da casa térrea, inatingível o sonho de brincar às casinhas num arranha-céus, talvez grite, um dia, com o Pessoa, na cidade portuária do Báltico "Ondas passadas, levai-me/para o olvido do mar!/Ao que não serei legai-me,/Que cerquei com um andaime/A casa por fabricar."

No terraço de Turning Torso, o Homem de Vitrúvio despe-se de toda a geometria e transforma-se em ave.»

________________
Quando for grande, quero escrever assim. Destas coisas.

Deniz Costa

Anónimo disse...

Este blog é uma benção na monotonia do quotidiano. Obrigado!

FR disse...

Gostei do blog, convido a visitar este antro deveras interessante pelo simples facto, que lá na Arca, escrevem os mais prodigiosos inventores da escrita zoófila. Passe e comente...abraços bloguistas
e se gostar "link"

www.arcadobue.blogspot.com

BlahBlahBlah disse...

Puósso-lhe c'o alho? Bá lá m'nina. Éê Sáo Juôn. Nom? Entom uma marteladinha, póde sêre?

Bibó Puârto, carágo :)
E bibó Sáo Juôn.
E bibó Rumôn, tamenhe.

Excelentes fotografias.

BlahBlahBlah disse...

Puósso-lhe dar c'o alho?
Bá lá m'nina. Éêe Sáo Juôn.
Nom? Entom uma marteladinha,
póde sêre?

Bibó Puârto, carágo :)
E bibó Sáo Juôn.
E bibó Rumôn, tamenhe.

Excelentes fotografias.

Effe disse...

Carlos,
greetings from Italy, from one who loves Portugal and Pessoa (who doesn't love both, anywhere?) and unfortunately don't speak Língua Portuguesa (but understand a littel bit).
A friend of mine, living in Galicia, bring me here.
Strange thing, the weblogs.
Thanks for pictures and words you give us a s a gift.
Tem um bom dia.

Effe

Ernesto disse...

bem, e assim vai a nossa cidade.

Kuka disse...

O blog está fantástico. Um dos melhores que já vi.
O Porto merece realmente que seja visto sob todas as perspectivas, analisado em todos os seus recantos e vivido em toda a sua magnitude!
Amo o Porto, é a minha cidade! Aquela em que tive a sorte de nascer e aquela em que tenho o prazer de viver!
Parabéns!

Mendes Ferreira disse...

e
s
t
a
n
o
i
t
e
é

d
i
a
!
!
!

mariaigloo disse...

olá!
até próxima sexta-feira!...

arlequim disse...

gostei de te descobrir!!! bjs

Santiago disse...

Fantástico.

Aqui de Lisboa ficamos mais perto da nossa cidade de sempre.

jessica disse...

foi com surpresa e um bocado a deriva k encontrei este blog..antes d tudo deixo os meus parabens p um blog mt bem conseguido...

e impossivel n nos deixarmos embriagar por estas palavras k parecem o eco d kem conhece bem esta cidade...a imagem preenche o espaço k faltava e deixa o olhar preso nos encantos do porto..

david santos disse...

Lindo Porto à noite!
Parabéns.

Monica disse...

Parabéns. Quem é do Porto e está longe, lê o teu blog con saudade...