11 de abril de 2005

O sonho de António Nascimento

Ter o hábito de passear pelas ruas de uma cidade e observar atentamente as fachadas dos edifícios pode revelar-se compensador. Uma boa parte da história de cada urbe está aí inscrita, como se de um livro se tratasse. É só abri-lo e lê-lo, para podermos datar um prédio, avaliar as suas funções e até a ambição e o ideal de quem o mandou construir.



O edifício que é hoje conhecido como sendo da FNAC, na Rua de Santa Catarina, foi encomendado a Marques da Silva, um dos mais prestigiados arquitectos portuenses, por António Nascimento, um próspero industrial de marcenaria com fábrica no Freixo, intitulado o maior produtor de móveis da Península Ibérica. Era intenção do industrial construir um grande armazém de decoração de interiores.

Marques da Silva, depois de ter feito uma longa viagem pela Europa para observar estabelecimentos congéneres, apresentou o primeiro estudo dos Grandes Armazéns Nascimento em 1914. O edifício, contudo, só foi inaugurado em 1927.

A sorte terá andado arredia do laborioso industrial que viu a fábrica do Freixo destruída por um incêndio em 1934. António Nascimento foi assim obrigado a vender os armazéns em 1939.



Depois dessa data e até aos anos setenta, funcionou lá o Café Palladium. Este nome manter-se-ia nas Galerias Palladium, um pronto-a-vestir que terá durado até meados dos anos oitenta. Actualmente convivem naquele espaço duas multinacionais, uma de vestuário e outra de produtos culturais.

O interior dos grandes armazéns foi entretanto descaracterizado. Restou para a memória do presente, a fachada do edifício que Marques da Silva concebeu, à medida do sonho de António Nascimento.

8 comentários:

amie disse...

Que gira memória que me trouxeste...Eu lembro-me de comprar nas Paladium...vá lá que a Fnac não fica lá mal também!

microrocha disse...

bem, so queria expressar que de todos os blogs que tenho visitado, este em particular faz com que me prenda ao ecrâ. Tem a particularidade de abordar assuntos do meu interresse, mas acima de tudo, porque a Cidade Surpreendente (Porto) acolheu-me nestes últimos anos, e pela qual tenho um amor imenso.
Cá vou continuar a vir, e a esperar sempre mais.

sombr|A|rredia disse...

...e como é belo ouvir os carrrilhões implantados neste edifício :)

http://soppro.blogspot.com

MXMNMX disse...

As cidades têm edifícios emblemáticos que muito têm a dizer-nos mas e as pessoas, essas nada têm? Onde estão as peixeiras do bulhão? onde estão os arrumadores de carros? onde estão? "Ter o hábito de passear pelas ruas de uma cidade e observar atentamente as fachadas dos edifícios pode revelar-se compensador." Mas ter esse hábito em relação às pessoas que habitam ou trabalham nesses edifícios é, na minha modesta opinião, muito mais enriquecedor.

Nada tenho contra o trabalho aqui exposto. É um projecto válido e bem conseguido, mas acho que a "alma" de uma cidade, se assim se pode chamar, vive sobretudo de quem a constroi (no sentido de quem a habita, dinamiza, molda) e não só do que está construido.

Carlos Romao disse...

Caro MXMNMX

Terá toda a razão no que diz, porém este blogue não obedece a nenhum projecto nem está esgotado. Gosto de cidades e gosto de as fotografar, pelo puro prazer de o fazer. O que mostro aqui corresponde a uma visão estritamente pessoal e não tem qualquer pretensão jornalística. Concordo que o blogue tem poucas fotografias de pessoas, mas tem-nas. Quanto às peixeiras do Bolhão, aparecerão com certeza um dia destes.
Obrigado pelo comentário e não deixe de aparecer pela Cidade Surpreendente.

Anónimo disse...

António Nascimento é meu bisavô. Quando os Grandes Armazens Nascimento foram inaugurados, nas comemorações da fundação da firma "António do Nascimento & Filhos", que se localizava na Rua Ferreira Borges (Porto), no edificio onde hoje se encontra os correios, já António do Noscimento tinha falecido. De qualquer forma é a António Nascimento que se deve toda a dinâmica e qualidade que também contribuíram para a fama daquela casa comercial
Manuel Magalhães

Dionisio disse...

Ainda conheci o café Palladium. Tinha 5 anos quando lá entrei pela primeira vez. A grande porta giratória e o enorme espaço pasmaram-me. Levava comigo um balão que escapou da minha mão e foi vê-lo subir, subir, até parar no alto teto. Chorei pela perda mas bastou um bolo daqueles que eram servidos numa caixa e a subida aos outros andares para me "esquecer" do balão. Aproveito para felicitar este blog pois é muito bom. Parabens.

Carlos Romao disse...

Muito obrigado, Dionísio, pelo seu comentário.